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Ryan Adams no NOS Alive'17

Rita Carmo

Ryan Adams é um gato (mas não seremos todos?)

Ainda não foi desta que um dos meus cantores-compositores de estimação fez jus, em palco, à obra que tem gravada. Mas será possível que o venha a fazer? (Ou a crónica possível do concerto no NOS Alive)

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

16 álbuns a solo, fora as miudezas (EPs, singles avulsos e outras surpresas que vai lançando, com frequência e entusiasmo). Antes disso, uma carreira fugaz mas muito frutuosa à frente dos Whiskeytown, que para a história da alt-country deixaram três belos discos, entre o rock ainda meio roufenho dos anos 90, a música popular americana e, sobretudo no derradeiro e conturbado Pneumonia, as mais amorosas canções pop.

Ryan Adams anda nesta vida da música há mais de 20 anos, e parece ter gastado umas três ou quatro vidas nos últimos tempos. Não por acaso, o seu animal predileto será o gato - é ele que está amplamente representado em palco (carregado, também, de outros recuerdos que o farão sentir em casa, como velhos monitores de televisão e computador), é ele que enche o seu bem alimentado Instagram, e é ele que lhe empresta o feitio arisco e imprevisível que mantém, ao cabo de tanto tempo no "negócio".

Ontem à noite, e apesar de tão longos pergaminhos, David Ryan Adams deu aquele que foi apenas o seu segundo concerto em Portugal. Do primeiro, na Aula Magna há seis anos, resta-me a memória nublada, mas emocionada, de uma atuação acústica, sentada e algo taciturna. Virada para dentro, pelo menos.

Desde então que desejávamos vê-lo num concerto em pé, postura a que os últimos álbuns, de resto, convidam. E assim foi, no palco Heineken pelas 22 horas: com uma banda visualmente muito discreta (exceção feita à t-shirt dos Smiths do baixista e à dos Royal Blood, do baterista), o norte-americano ligou-se à eletricidade para honrar os dois últimos discos: "Do You Still Love Me?", mais uma exclamação do que realmente uma pergunta, fez as honras de abertura, em representação, tal como "Anything I Say To You", do mais recente Prisioner, condizendo em espírito roqueiro com "Gimme Something Good", do seu antecessor, de 2014.

Pelo meio de tanta guitarra relampejantes, mesmo canções por vezes apresentadas com outro tipo de delicadeza, como a maravilhosa "Let It Ride", ou a recuperação do prodigioso Heartbreaker, ""To Be Young (Is to Be Sad, Is to Be High)", foram engolidas por um certo ruído.

Imprevisível e caprichoso como os seus amigos gatos, Ryan Adams fez ainda, em três ou quatro canções, o gosto aos solos de guitarra e até a algumas jams, ignorando canções que haviam marcado presença em alinhamentos recentes. Incomodado, por ventura, com o som que a certa altura se fazia ouvir, vindo do palco principal, deixou de fora "Come Pick Me Up", uma das suas canções mais populares, com que vem encerrando todos os seus espetáculos, substituindo-a por "Shakedown on 9th Street", bem mais artilhada de decibéis para combater o som que vinha do palco NOS, mas dona de muito menor impacto emocional.

Se tivesse de escolher o momento mais feliz da noite, optaria pela sequência "Outbound Train" (um dos melhores temas do disco deste ano) + "When The Stars Go Blue", resgatada ao segundo tomo do homem-gato e ontem interpretada com especial esmero, e até alguma teatralidade, na frente do palco (onde, chuif, duas guitarras acústicas e um microfone especial ficaram por usar).

Aliás, sempre que o volume dos instrumentos da sua banda algo anónima baixava, subia o nosso contentamento com a voz - sempre tão expressiva e emotiva - do rapaz que, a fazer fé no Instagram, andou a passear por Lisboa de t-shirt dos Motörhead.

Quando o vimos na Aula Magna, ficámos a sonhar com um concerto mais rock. Desta feita, sentimos saudades da sua faceta mais intimista (ou, pelo menos, de um set mais longo e servido por um som mais límpido).

Seremos nós também como um gato, desejoso de sair quando a porta está fechada e especado a olhar quando ela se escancara à nossa frente?

Na segunda passagem por Lisboa, Ryan Adams não deu um mau concerto, pelo contrário. Mas, mesmo que seja impossível meter o Rossio de uma carreira destas na Betesga de uma hora, continuo a acreditar que da terceira é que vai ser.