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NOS Alive'17

Rita Carmo

Duas ou três coisas sobre o NOS Alive e a excelência dos festivais em Portugal

Não é uma questão de gosto: os festivais em Portugal são os melhores da Europa

Os festivais em Portugal são os melhores da Europa. Atentem nos dois principais fatores que os definem, isto é, o cartaz e o preço dos bilhetes, e será muito difícil provar o contrário.

Por mais voltas que se dê – e apesar de não estarmos muito atentos a essa realidade – é de ciência certa que os festivais portugueses estão entre os melhores da Europa. Faça-se o cotejo dos cartazes, compare-se o preço dos bilhetes e o resultado é claro como a água. Há poucos eventos capazes de se baterem com aqueles que acontecem por cá. E assim acontece por duas simples razões: as marcas patrocinam e a comunicação social oferece um espaço sem igual. É esse o ciclo virtuoso dos festivais de música que alegram o Verão português. E tanto assim é que não ligamos patavina aos festivais que acontecem lá por fora, em Espanha, França, no Reino Unido, na Alemanha ou Escandinávia; ou mesmo na emergente Europa do Leste, onde já se batem com os melhores. Antes pelo contrário. São os estrangeiros quem cobiça os festivais portugueses.

Rita Carmo

Podemos começar por aí. No NOS Alive, diz a produtora Everything Is New, há mais de vinte mil turistas oriundos da Grã-Bretanha, França, Espanha e de mais um ror de países. As contas já foram feitas noutras ocasiões mas resultam simples. Aqui veem-se os melhores artistas a um preço que faz com que as férias fiquem quase de borla.

Se é bom ser estrangeiro em Portugal, ainda devia ser melhor nascer português. O NOS Alive, que desde há onze anos sucede lá para as bandas do Passeio Marítimo de Algés tem pugnado pela excelência do cartaz. Repito-me: não se trata de uma questão de gosto. Os Foo Fighters foram cabeças de cartaz em Glastonbury, The Weeknd é a maior revelação da música norte-americana dos últimos dois anos e os Depeche Mode regressam como aposta segura e com novo álbum. Não é preciso amar cada um destes três para saber que são dos artistas mais pretendidos para a época estival recentemente inaugurada. E isso não tem a ver com predileção ou favoritismo. Basta pesquisar nos sítios certos pelo cachet que cada um cobra para se apresentar num festival perto de si. São dos maiores.

Vamos a contas? Um bilhete para a edição deste ano de Glastonbury custava 238 libras esterlinas, cerca de 270 euros. Bem sei, são cinco dias. Para o Rock Werchter, na Bélgica, dura quatro dias, são €236; para o Rock Am Ring, na Alemanha, são €210; para o Roskilde, na Dinamarca, €268. Para o NOS ALive, em Lisboa, eram €129. Alguém se admira que a lotação esteja esgotado? Alguém se espanta com o contingente forasteiro? Bem, depende da lotação. Mas já que se fala nisso, vamos à questão da segurança. Por sorte, competência ou pelas duas razões em simultâneo, nunca um acidente grave sucedeu num festival português. E esse é outros dos fatores decisivos. Não só o país goza de uma serenidade que o distingue de outros territórios como, no caso particular dos festivais, há, até agora zero incidências a registar. Outro ponto a favor.

Rita Carmo

E a oferta, para lá dos headliners? Não nos distraindo com os outros dias e focando apenas nos artistas que sobem ao palco esta quinta-feira, além do cabeça de cartaz, há que contar com os The XX, Ryan Adams, Royal Blood, Glass Animals e piscadelas de olho a outros públicos com Miguel Araújo, um palco exclusivamente dedicado à música eletrónica e outro à comédia. Ainda não chega?

Se juntarmos a este pacote o Rock in Rio – que não se realiza este ano e que é o único festival de maior dimensão que o NOS Alive – e, numa segunda linha, o Super Bock Super Rock, o NOS Primavera Sound, o Vodafone Paredes de Coura, o EDP Cool Jazz, além de todos os outros como o Sol da Caparica, o Med em Loulé, o Bons Sons em Cem Soldos, o Músicas do Mundo em Sines e tantos outros, há uma verdadeira pirâmide que, desde meados da década de 1990, foi sendo preenchida e que oferece música para todos os gostos nos mais variados ambientes. Pensar que tudo isto aconteceu em apenas duas décadas é perceber como a indústria da música se transformou radicalmente nos últimos anos.

E se este ciclo virtuoso parece imparável, não vale, porém, esquecer os perigos que espreitam. A associação entre promotores, marcas e comunicação social que marca decisivamente os festivais portugueses só fará sentido ou durará enquanto todos se sentirem confortáveis. Esconder que um evento terrivelmente negativo pode destruir aquilo que se construi ao longo de vinte anos é não querer acautelar o futuro. Por isso o fator chave dos festivais deste ano e dos próximo é não tanto a sua rentabilidade, que por ora parece assegurada, mas a segurança que cada produção for capaz de oferecer aos artistas e, sobretudo, aos espectadores. Façam o favor de bater três vezes na madeira.