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The National (em 2008)

A luz negra das novas canções dos The National

Em outubro, a banda regressa a Portugal para apresentar o novo álbum que, apesar de algumas inovações, aponta para um bem-vindo regresso a tempos mais intimistas

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Quando se traz uma banda no bolso do coração durante mais de uma década, acompanhando em tempo real a sua ascensão e eventual queda, torna-se complicado ser objetivo na hora de avaliar um novo trabalho.

«Objetividade» será, de resto, a maior ilusão no que toca à produção de discurso crítico – sendo todos nós sujeitos, por enquanto humanos e não robóticos, é impossível que sentimentos, memórias e gosto pessoal não moldem a opinião que formamos sobre certo disco.

De volta aos grupos dos quais nos sentimos uma parte (ínfima, mas uma parte), então: acompanho o percurso dos norte-americanos The National desde Alligator, disco que descobri aos pouquinhos em 2005, ano em que foi editado. Se de início me atraíam as canções mais rock e velozes, como as entretanto canonizadas «Mr. November» ou «Abel», gradualmente fui descobrindo o terceiro LP da rapaziada de Cincinnati enquanto álbum de vinhetas impolutas, permeadas por uma lânguida melancolia que até hoje me conforta.

12 anos depois, os The National cimentaram o seu estatuto como banda indie de médio porte (com o aclamado Boxer e o seu robusto sucessor, High Violet) e tentaram, a meu ver, rubricar um som mais pop e direto em Trouble Will Find Me, lançado há já quatro anos, e casa de boas canções, como aliás raras vezes deixam de fazer.

O campeonato em que o quinteto – em tempos radicado em Nova Iorque, agora disperso por Los Angeles e outras cidades dos Estados Unidos – consegue fazer a diferença é, porém, outro. Ouvindo as primeiras amostras de Sleep Well Beast, o disco novo, nas lojas em setembro, encontramos a banda às voltas com uma suave reinvenção (há soluções mais eletrónicas, mas nada capaz de enviar o baterista Bryan Devendorf para a reforma) e, paradoxalmente, num certo regresso a tempos mais intimistas.

É nesta escala – a de «Guilty Party», por exemplo, single revelado muito recentemente – que os National brilham mais intensamente. E, como se pode ir percebendo pelo concerto que deram em Paris, repleto de temas novos, é a este casulo, quente e escuro, que Matt Berninger e comparsas parecem estar de volta.

Há já quem fale numa aproximação ao som de Alligator mas, às primeiras escutas, a arquitetura de canções como “Walk It Back" (com partes distintas e só aparentemente desconexas) remete-me para tempos ainda mais remotos – no álbum que antecedeu Alligator, Sad Songs For Dirty Lovers, Berninger, os gémeos Dessner e os manos Devendorf já experimentavam fazer canções como quem brinca com legos, sem pressa de chegar ao refrão ou ao soundbyte.

Como comecei por dizer, quando trazemos uma banda por perto há tanto tempo, é difícil perceber se a adesão a um disco novo se deve aos méritos do mesmo ou à sensação de conforto que nos oferece o regresso aos seus familiares encantos. Mas Sleep Well Beast parece ter pernas para se aguentar por si só, longe da sombra dos «irmãos» mais velhos.

«I’ll still destroy you someday, sleep well beast, sleep well beast» - é assim que se despedem os National, no último tema do seu sétimo álbum, que vêm apresentar ao Coliseu de Lisboa em outubro. Quando a luz dos National brilha, fá-lo com vigor. Mas é sobretudo uma luz negra.