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Jay-Z, o velho mestre, é Rembrandt

No Observador, Vasco Mendonça escreveu sobre Jay-Z e chamou-lhe “velho”. E ainda o comparou, sem se perceber bem porquê, a Ricardo Salgado. Rui Miguel Abreu prefere usar o pintor holandês neste jogo de espelhos, mas sim, concorda que Jay-Z está velho. Não vê é mal nenhum nisso. Pelo contrário...

O estimável Vasco Mendonça dedicou umas linhas a Jay-Z num texto de título "Jay-Z pode ser o dono disto tudo, mas não encanta" publicado no passado sábado no Observador. Mendonça começa por ensaiar um paralelismo com Ricardo Salgado e recorda o episódio que ocorreu num restaurante do Guincho quando o empresário foi alvo de um "protesto" por parte dos comensais presentes, que bateram com os talheres em sinal de reprovação pelos actos que então começavam a vir a público. O cronista pergunta, depois, quantos de nós bateram com os talheres quando souberam do regresso de Jay-Z. Só posso falar por mim e dizer que, à hora a que o disco saiu no Tidal, eu não estava perto de uma mesa de refeição e, se estivesse, ter-me-ia levantado para subir o volume. Bater com os talheres para quê?

O paralelismo que Vasco Mendonça usa para afirmar que Jay-Z trouxe "um disco a dar para o morninho" não funciona, nem quando explica que "onde Ricardo Salgado se desviou da legalidade, Jay-Z aproximou-se da normalidade". Na verdade, o homem forte do BES (de)evoluiu de alegado grande empresário para a condição de inimigo público número 1, julgado na imprensa e condenado pela opinião pública, ao passo que Hova se transformou de um (também) alegado criminoso (terá sido dealer de droga antes de iniciar a carreira musical) em artista e empresário de enorme sucesso, glorificado na imprensa e aplaudido pela opinião pública. "Not a businessman - a business, man!" É o próprio J que esclarece.

Mais certeira, julgo eu, poderia ter sido uma comparação de Jay-Z com Rembrandt van Rijn, o mestre holandês do século XVII. Jigga é um homem pleno, não precisa, na verdade, de ser comparado com ninguém, a não ser consigo mesmo, mas compreendo, como certamente o Vasco Mendonça, que estes jogos de retórica são por vezes irresistíveis e, em certa medida, até úteis.

Sim, é verdade que, como Rembrandt, Jay-Z poderá já ter deixado os grandes gestos artísticos para trás nesta fase da sua vida: o pintor assinou A Ronda da Noite aos 36 anos e o rapper ofereceu Blueprint ao mundo aos 32, mas, como tornado extremamente claro pela exposição Rembrandt: The Late Works que apanhei na National Gallery, de Londres, no final de 2014, a fase final da obra de um grande artista pode conter em si maravilhas que o fulgor da juventude nunca permitiria revelar. A escala grandiloquente de peças como A Ronda da Noite podia acomodar não apenas a expressividade narrativa, as dramáticas composições de luz e a mestria no domínio do pincel, das cores, das texturas, mas também uma óbvia ambição financeira: são 34 as figuras retratadas, cada uma a pagar uma verba generosa ao mestre para figurar na composição. A escala derivava também do negócio, não apenas do talento. "Not a businessman - a business, man!".

O trabalho tardio do mestre holandês, por outro lado, dispensou bastas vezes a escala comercial em favor de uma honesta e desarmante humanidade presente, sobretudo, nos autorretratos, autênticos tratados psicológicos feitos ao espelho, com a tinta a revelar o que Rembrandt pensava sobre si mesmo. E agora, sim, podemos falar de 4:44.

Na verdade, Vasco Mendonça nunca adianta qual, na sua opinião, será o pináculo da obra de Jay-Z, mas descreve o novo álbum como um "smallest hits" e explica que apesar de "alguns momentos que nos revelam a argúcia e técnica do artista", 4:44 está, na verdade, "longe de ser a coisa mais interessante que já fez". O cronista não cuida de identificar os tais momentos de argúcia, nem revela o que já fez ele, afinal de contas, de mais interessante, o que seria útil para podermos correctamente pesar as suas palavras. Ainda assim, acho difícil não discordar imediatamente das duas palavras de que Vasco se socorre para classificar o que na sua opinião serão os aspectos mais positivos deste novo trabalho de Jay-Z: é que argúcia e técnica é mesmo o que aqui menos importa.

Como nos trabalhos de Rembrandt, o velho, adivinha-se em 4:44 uma profunda sinceridade e um claro desejo de não esconder os seus defeitos: Jay-Z começa por se "matar" ou talvez por matar o mito, para revelar o homem em "Kill Jay Z", a faixa de abertura, em que rima "you had no father, you had the armor / but you got a daughter, gotta get softer" e ainda "you don't need an alibi Jay-Z / Cry Jay-Z, we know the pain is real". Fraquinho? São muitos os artistas a exporem assim as suas falhas? Onde andam eles, Vasco?

Este é, ao invés, um álbum em que Jay, ignorando tendências comerciais, jogos de interesse ou estratégias calculadas, dispensa por completo os típicos features do género e entrega a produção toda ao enorme No I.D. que se socorre dos grandes da soul - Nina Simone, Stevie Wonder, Donny Hathaway - e de alguns nomes mais exóticos, mas musicalmente interessantes para servirem as deambulações emocionais de Jay-Z: do britânico Alan Parsons aos portugueses Quarteto 1111 (e já agora, caro Vasco, teria sido simpático se a origem da informação que aponta para que Tozé Brito e José Cid tenham agora direito a uma "percentagem simpática" do publishing do tema "Marcy Me" tivesse sido identificada...). Além disso, ainda pincela com toques de Jamaica alguns outros momentos, dando ao lado musical de 4:44 um recorte clássico, nada aventureiro ou experimental, exactamente o que Jigga acredita precisar agora.

Finalmente há o lado de negócio: este disco, como algumas das maiores obras de Rembrandt, não resulta de uma encomenda - de uma editora por exemplo -, até porque nesta fase mais tardia da sua carreira, Jay é o seu próprio patrão, dono exclusivo do seu destino artístico. 4:44 é um confessional autorretrato pintado por íntima necessidade, não por vaidade. E por isso está, para já, confinado ao Tidal, como uma obra que o mestre van Rijn possa ter produzido para figurar apenas no seu atelier e não num qualquer palácio, museu ou instituição pública. Isso limita o alcance e impacto do álbum, mas não lhe retira qualquer lasca de credibilidade ou qualidade. E em 4:44 Jay-Z discorre sobre a identidade negra na América moderna, pede sinceras desculpas, reflecte sobre o seu papel como homem, pai e marido. E assume as cicatrizes, as falhas, os defeitos. Argúcia? Técnica? Que tal honestidade e transparência? Basta ler a letra de "4:44", o tema que dá título ao álbum, para perceber que este é um novo Jay-Z. Ou melhor, um Jay-Z mais velho, capaz de dizer "I don't deserve you" e "took for my child to be born / to see through a woman's eyes". Muito pouco para nos dizer? A sério?