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Língua Franca

Língua Franca: “É muita ginga”

Sempre atento às novas movimentações, Caetano Veloso assina o texto de apresentação de Língua Franca, o super-grupo do hip-hop luso-brasileiro

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Prestes a completar 75 anos, Caetano Veloso continua abençoado com o dom da palavra e com uma curiosidade insaciável pelo que de novo se faz na música. Depois de «apadrinhar», há já vários anos, a carreira de António Zambujo, mais recentemente apelou ao voto eurovisivo em Salvador Sobral e agora assina o texto de apresentação de Língua Franca, o super-grupo de hip-hop que reúne Capicua e Valete, do lado de cá do Atlântico, e Rael e Emicida, do lado de lá.

«Capicua (com seu nome artístico de origem catalã, em que significa palíndromo: seu nome de batismo é Ana) é branca; Valete é negro; Emicida e Rael são mestiços. Os dois primeiros são portugueses; os dois últimos, brasileiros. Os quatro falam a mesma língua. A língua franca do rap. E a língua franca da lusofonia», escreve o baiano, assinalando: «O rap é a língua franca da diáspora negra e, já hoje, de algumas gerações de pessoas muito jovens, de todas as cores, nas cidades do mundo. O português é a língua franca da Damaia, da Canhoeira, do Grajaú, do Porto, de São Tomé e Príncipe, de Cabo Verde, de Angola, de Moçambique, do Brasil e de Portugal. São muitas camadas de desqualificação superpostas, muitas camadas de opressão. Muita ginga».

Tendo estado, na alvorada dos anos 70, no epicentro de movimentos como o Tropicalismo, Caetano Veloso recusa-se a viver das glórias do passado; ainda lança discos, ainda toca ao vivo (passando abundantemente por Portugal) e ainda recomenda vigorosamente artistas que podiam ser seus netos, por se identificar com «todo o mundo humano que se representa nessa associação de MCs».

Ouvir as dez canções de Língua Franca, o primeiro álbum deste quarteto fantástico, é encontrar uma coleção de ótimos temas, súmula dos super-poderes de cada um destes «heróis»: a verve política e as palavras-seta de Capicua e do regressado Valete, bem corroborada pela abordagem granítica de Emicida, igualmente capaz de alinhar, com o também paulista Rael, em temas mais lúdicos («Modo de Voo», «Ideal»). Sem egotrips (curiosamente, título de uma das faixas, dividida por Emicida e Capicua) e com convidados de luxo, como Sara Tavares, perfeita em «AFROdite», Língua Franca estreia-se ao vivo no próximo dia 14 de julho, com um concerto sob a pala de Siza Vieira, ou seja, no palco EDP do Super Bock Super Rock. Com vista desafogada para o Tejo, será um cenário de eleição para assistir a esta nova diáspora lusoqualquercoisa.