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Nick Cave

Adorável Nick Cave

A propósito de “Lovely Creatures - The Best of Nick Cave and the Bad Seeds”, esplêndido receituário

Intitulá-la “Lovely Creatures” tem o seu quinhão de humor negro, mas é também uma medida tão acertada que não há como chamar-lhe outra coisa. A aturada retrospetiva de carreira de Nick Cave com os Bad Seeds é uma mostra inatacável de adoráveis criaturas que, por uma vez, se imobilizam num expositor a pedir contacto. Façamos, também por uma vez, batota e olhemos para elas no museu.

O mistério de Nick Cave, 59 enxutos anos de uma vida lixada, não foi sempre o mesmo. As suas musas, o seu ímpeto e o seu pincel sofreram metamorfoses ao longo de quase quarenta anos de percurso discográfico (desde 1983 em intensa colheita de nefastas sementes). O olhar, esse, manteve-se vivo — mesmo quando, entre o final dos anos 80 e o início dos 90, o australiano esteve perto de se tornar mais uma vítima da agulha.

Com os Bad Seeds — ou nos Bad Seeds, sejamos inclusivos —, Cave pintou as almas de negro procurando a salvação, fez canções ao danado para chegar a um deus, orou e praguejou, mas não deixou o amor ficar de fora — cabe tudo, tudo tem de caber (só verá aqui um paradoxo quem nunca questionou os ‘facts of life’). “Lovely Creatures” são também, despojos de incêndio, cinzas que se erguem. Rock and roll maligno, marginal, cortante, mortífero, que eleva o profano e bomba sangue pelas veias. Ouvimo-lo — sentimo-lo — no precipício de ‘From Her to Eternity’, no paiol de ‘Tupelo’, na ginga embriagada de ‘Deanna’, na entrega incondicional de ‘Straight to You’, no retrato obstinado de ‘Stagger Lee’, no storytelling de ‘Nature Boy’, na narrativa pormenorizada de ‘Jubilee Street’...

A melhor música de Nick Cave alimentou-se sempre de uma fantasmagoria blues. Há, sobretudo na primeira metade desta coleção de 45 canções (ampliada com livrete de 36 páginas e DVD), o retrato de uma vida de gangue, onde o diletantismo e a essencialidade seguem de mão dada rumo ao fundo do copo. Onde a religião é tanto o repositório da resignação como uma ferramenta de redenção. Onde o diabo não é o outro — espreita e toma a forma dos corpos. O melhor de Nick Cave é o hedonismo religioso, a rara qualidade de misturar fluidos corporais com água benta.

A certa altura, as canções tornaram-se menos fervilhantes, aparentemente mais conformadas, mas ‘Dig, Lazarus, Dig!!!’ agitou as águas no momento certo e, nos tempos mais recentes, Cave redescobriu-se como atento observador. Escrever uma canção “é como empurrar melancias a arder através de um pequeno buraco”, disse um dia o artista sobre a sua arte. É um comentário um pouco bruto, mas nada disto foi fácil.

Originalmente publicado na revista E, do Expresso, do dia 27 de maio