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OK Computer

“OK Computer”, o disco que mudou a minha vida

Foi há 20 anos, mas lembro-me, verdadeiramente, como se fosse ontem. Volto hoje ao momento em que os Radiohead se tornaram “a minha banda favorita”

Claro que já conhecia os Radiohead quando a minha melhor amiga me perguntou “ouviste o álbum novo?”. "Creep" tinha-me apanhado no pico da pré-adolescência e, obviamente, tinha feito mossa: não havia melhor/pior canção para 12 anos suburbano-depressivos cheios de incertezas. The Bends, muito por culpa de "High and Dry", tinha-me passado ao lado, dois anos antes, mas acabaria por tornar-se, mais tarde, o meu “álbum favorito” daquela que se tornou a minha “banda favorita”. Eu, que nunca fui de assumir abertamente favoritismos, continuo a dizer, até hoje, que a banda liderada por Thom Yorke permanece no topo das minhas referências musicais. E a culpa é daquele “álbum novo” que eu ainda não tinha ouvido.

OK Computer chegou às lojas há 20 anos. Hoje, com a reedição comemorativa a servir de banda sonora, recordo o momento em que, por volta desta altura, há duas décadas, entrei com a Inês na loja da Valentim de Carvalho do Rossio e a minha vida parou. Nunca antes me tinha acontecido e nunca mais voltou a acontecer: coloquei os auscultadores e ouvi tudo, canção a canção, de fio a pavio… Recordo-me até do local exato onde ficava o posto de escuta frente ao qual passei aquela hora, em pé, sem conseguir descolar. Não era muito conveniente para as minhas poupanças, mas tornou-se impossível sair da loja sem o álbum nas mãos.

Foram meses, largos meses, de vício. Nunca consegui decorar o discurso de “Fitter Happier” integralmente, mas a mensagem que trazia encaixava como uma luva na minha vontade de culpar “a sociedade” por tudo o que se passava comigo. À exceção desse tema, que muitas vezes saltava porque me incomodava, cada canção de OK Computer foi sendo, à vez, a minha favorita. “Airbag” era o início perfeito, “Paranoid Android” a minha “Bohemian Rhapsody”, “Subterranean Homesick Alien” o mais perto que chegava de drogas, “Exit Music (for a Film)” o momento trágico-romântico (obrigado Baz Luhrmann), “Let Down” a mais especial de todas, “Karma Police” um carro em chamas, “Electioneering” o momento punk que me fazia dançar, “Climbing Up the Walls” a favorita para ouvir antes de fechar os olhos, “No Surprises” a única que a minha irmã conseguia suportar (até ver o vídeo)… “Lucky” carregava a esperança de me tornar otimista, “The Tourist” era a segunda favorita para adormecer.

Sei que bebi o que havia para beber ali. Comprei todos os singles para descobrir que não havia banda com melhores lados b (“Polyethylene (Parts 1 and 2)” e “Pearly” continuam entre as minhas favoritas), comprei um livro biográfico, vasculhei a Carbono da Amadora à caça de bootlegs, inscrevi-me no clube de fãs… A minha primeira pesquisa nessa coisa estranha que comecei a descobrir por aquela altura e a que chamavam Internet foi “Radiohead”. Voltei a “Creep” para (re)descobrir Pablo Honey e dei uma outra oportunidade a “High and Dry” para me deixar conquistar por The Bends.

Não percebi na altura o tremendo impacto que OK Computer teria no percurso da banda e na história da música, nem compreendia verdadeiramente o porquê de ser considerado revolucionário. É coisa que, até hoje, pouco me interessa… É mais importante para mim reconhecer o impacto que este grupo de canções teve na minha vida e o quão revolucionário foi para a minha história. É um disco feliz e doloroso ao mesmo tempo, ao qual raramente regresso porque me deixa à beira das lágrimas pela quantidade de memórias que carrega com ele. Mas também é o único disco sobre o qual posso dizer com orgulho: ajudou-me a crescer e mudou, mesmo, a minha vida.