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Opinião

Aldous Harding

Quando os discos são como cerejas

Melhor do que descobrir um álbum que se adora, só mesmo descobrir dois

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Poucos prazeres superam, na vida de um amante de música, aquela alegria de descobrir um disco que desde logo se pressente vá ser nosso amigo. Ou seja, encontrar uma coleção de canções com as quais a empatia é imediata, mas onde o mistério também pode residir, para que continuemos a querer decifrar os seus segredos, depois do encantamento inicial.

Na semana passada, enamorei-me de Party, enganador título do segundo álbum de Aldous Hardin. Tudo na neozelandesa é, de resto, uma vaga ilusão: na verdade, chama-se Hannah, mas escolheu o nome artístico Haldous porque lhe parecia uma versão “masculina” de Alice; promete-nos festa no nome do disco (primeiro com distribuição internacional, e logo pela 4AD) e seduz-nos com uma cadência macambúzia, quase gótica (palavras suas!); foi recomendada ao mundo pela estrela pop Lorde, que elogiou a sua música no Twitter, mas mais facilmente nos remete para a folk britânica de décadas idas do que para os êxitos orelhudos da sua conterrânea.

E depois há a voz. Em canções que rapidamente se poderão tornar clássicos do indie contemporâneo, como “Imagining My Man”, “Living the Classics” ou no tema-título, “Party”, Aldous Harding tanto impressiona pelo timbre grave, quase andrógino, como recorda, ao de leve, a extravagante estridência de Joanna Newsom.

Produzido por John Parish, inseparável colaborador de PJ Harvey, Party pode parecer, na sua modesta roupagem – arranjos simples, muito silêncio para deixar a voz respirar, e assombrar – um disco simples, mas sussurra novos segredos a cada escuta. E diz quem já a viu ao vivo que, em cima de um palco, estas canções ganham garras. Aguardemos.

E como os discos são como as cerejas, que por sua vez se parecem com as conversas mais gostosas e devem ser consumidas com sofreguidão, eis que hoje tropeço (obrigada, algoritmo do Spotify!) em Not Even Happiness. Lançado há já alguns meses, é também o segundo disco para uma cantora-compositora que começa a chegar a mais vozes e corações (“I’ve been called heartbreaker for doing justice to my own”, canta no tema que abre o disco, “Follow My Voice”).

Tal como Miss Harding, que nasceu há 27 anos, filha de músicos, Julie Byrne foi buscar inspiração à família – o seu pai era guitarrista e quando, por sofrer de esclerose múltipla, deixou de poder tocar, a jovem, então com 17 anos, aprendeu a tocar, (também) como forma de homenageá-lo.

Sobre esta norte-americana, a informação disponível é ainda escassa, o que de certa forma ajuda a cimentar uma lenda em potência. Sabemos que cedo saiu de casa, percorrendo os Estados Unidos e chamando casa a cidades como Seattle, Nova Orleães ou Chicago; que estudou Ciência Ambiental e trabalhou nos verdes parques de Nova Iorque; que gosta de escrever sobre a vida de viajante e as relações entre humanos.

Mais importante do que a biografia, contudo, são as canções – “Natural Blue”, “All The Land Glimmered Beneath” – que se bebem como água. Desde Alela Diane que não ouvíamos uma voz assim, tão próxima da pureza folk de uma deusa como Gillian Welch. E, tal como Aldous Harding, Julie Byrne parece guardar segredos suficientes para continuarmos a mirá-la, e admirá-la, nos próximos tempos.