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Sam Lane for HS1 ltd

Uma canção pode mudar o mundo?

Vivem-se tempos mais agitados do que nunca e a música, cada vez mais presente e importante na vida das pessoas, pode ser a mais eficaz ferramenta de mudança

Na edição da revista BLITZ que sai amanhã para as bancas assino uma entrevista com John Legend que leva o título Uma Só Voz. No texto que acompanha a entrevista cito o grande Harry Belafonte, que foi um dos primeiros artistas pop negros a vender um milhão de cópias de um disco, logo em 1956, quando a América ainda discutia a ginga presente nas ancas de Elvis. A voz do clássico “The Banana Boat Song” foi parte importante na denúncia das injustiças da sociedade americana e cedo abraçou a causa do Movimento dos Direitos Civis tornando-se um dos mais próximos confidentes de Martin Luther King, Jr.. Este enquadramento é útil para se medir o alcance das palavras que assinou na revista Time a propósito de John Legend, estrela pop que ele descreve como “uma voz para a mudança”. A ideia, na crónica de hoje, é que se retenham estas duas palavras “voz” e “mudança”.

Na entrevista, Legend confirma que a música é uma importante ferramenta crítica das sociedades, uma alavanca para a expressão de indignação, para a imposição da mudança: “Sim, vivemos tempos angustiantes nos EUA e penso que as pessoas estão um bocado receosas do que possa acontecer durante o mandato de Donald Trump”, admite o co-autor de “Glory”, tema da banda sonora de Selma distinguido com um Óscar. “Os artistas estão todos a pensar em como vão reagir e isso pode inspirar alguma arte interessante. Há sempre um certo atraso quando estas coisas acontecem no mundo, demora algum tempo para os artistas reagirem e lançarem algo. Vamos ver nos próximos meses o que é que isso inspirou nos artistas”.

Entretanto, há apenas alguns dias, uma notícia discreta veiculada por alguns órgãos internacionais dava conta do facto de Obasi Shaw, um jovem estudante de Inglês na prestigiada Universidade de Harvard, parte da Ivy League americana, ter entrado para a história daquela instituição ao ter submetido um álbum de rap como a sua tese final de licenciatura. O álbum de dez faixas de Obasi Shaw, Liminal Minds, recebeu a classificação summa cum laude minus, a segunda mais alta no sistema de graduação de Harvard. Mais curioso ainda é o pormenor final da notícia que aponta para a vontade de Shaw de não seguir uma carreira musical, tendo já garantido um emprego como analista da Google, a partir de Seattle.

Outra notícia, esta um pequeno e até divertido fait divers apanhado no twitter ontem: Oxford, Inglaterra, outra das mais prestigiadas instituições universitárias do planeta serviu de palco à realização de um debate que procurava responder à questão que tem abalado os pilares desta civilização moderna em que nos inserimos: “Será Kanye West mais relevante hoje do que William Shakespeare?”. A pergunta servia de base ao debate de um clube dedicado, precisamente, ao esgrimir de ideias, ao uso da palavra como forma crítica de acção, um hábito nestas casas de pensamento que formam os futuros líderes globais.

Belafonte, Legend, Shaw, West, quatro vozes de diferentes alcances e até de diferentes tempos, mas todas reflexos de uma verdade inegável: a música negra na América dos últimos 60 anos tem sido um eixo crucial na dinâmica de transformação social. Foi essa a música que levou Barack Obama até à Casa Branca e, prevê John Legend, será essa a música a ecoar a oposição a Trump, a voltar a forçar a mudança de que a América – e o resto do planeta – precisa. Coube primeiro à soul servir de voz para o que precisava de ser dito e hoje o hip hop parece ser a lente com que futuros líderes, criados em Harvard ou em Oxford, olham para o mundo. Uma lente que também reflecte e capta as imperfeições do mundo, como é óbvio, mas que oferece uma perspectiva singular, uma moldura em que suspender as imagens e as ideias de que se pintará o futuro.

Nestes dias terríveis, a inspiração que a música – não só o hip hop, mas toda a música – pode oferecer aos nossos futuros líderes não é coisa de somenos. Pode até, acredito (eu que acredito em poucas coisas...), ser a solução para muitos dos problemas que nos afligem. É que às vezes basta uma canção. Só precisa é de ser a certa...