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Nick Cave

JUSTIN TALLIS

Nick Cave arruma a casa

Um best of caprichado, uma digressão (que não passa por Portugal), um homem cujo espírito não quebra, nem mesmo perante a maior das adversidades.

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Depois da tragédia que se abateu sobre si no verão de 2015, Nick Cave contrariou as expectativas – e os receios – de muitos, regressando não só aos discos (Skeleton Tree, de dolorosa escuta, saiu em setembro do ano passado) como aos concertos.

Aos olhos de um simples fã ou observador, a tarefa parece dantesca, raiando o impossível. Como pode um homem erguer-se das profundezas para onde foi arremessado pelo desgosto de uma vida e voltar a enfrentar plateias gigantes e sôfregas, apaixonadas e híper-vigilantes? Que tenha sido capaz de fazer das tripas coração no catártico Skeleton Tree já nos espantou, mas voltar aos palcos, onde não há espaço para repetir takes e todas as fragilidades são escrutinadas em ecrã gigante, parece ainda mais desafiante.

E, no entanto, desde janeiro que Nick Cave enfrenta, praticamente todas as noites, essas mesmas multidões de fãs. A digressão não passa, lamentavelmente, por Portugal (o Bad Seed excluiu festivais do seu roteiro), mas conta, até ao final do ano, com numerosas datas em grandes salas (estádios, arenas) na Europa e na América do Norte. Nick Cave está vivo, e quer que o saibamos.

Numa entrevista notável ao britânico The Guardian, publicada este mês mas realizada em janeiro, altura em que se preparava para voltar aos concertos, no seu país-natal, o cantor e compositor confessou que, apenas dois meses antes, se sentira como que atingido em cheio pela perda, uma segunda vez, rendendo-se à dor. Em palco, porém, a história é outra, faz questão de frisar.

O que eu não quero é que as pessoas que vêm aos concertos tenham de se envolver no drama de outra pessoa”, explicou a Mark Mordue. “Não quero que os concertos sejam assim. Quero que sejam animadores e inspiradores e que as pessoas saiam de lá mais bem-dispostas do que quando chegaram; não quero que haja um fenómeno de contágio na plateia e que vão embora a sentir-se na merda. Não quero isso. Porque não me sinto assim”, garante.

“Em palco sinto-me ótimo. É belo e inspirador. As canções são coisas estranhas, sabes. São pacientes, e esperam pelo seu significado, que vai mudando ao longo dos anos”, diz, dando o exemplo de clássicos que escreveu há décadas e está a redescobrir. “Há canções que agora têm outro significado completamente diferente, como a ‘Into My Arms’, por exemplo”.

O reencontro com o seu próprio espólio tem-na promovido, também, com o lançamento da coletânea Lovely Creatures. Nas lojas desde o início do mês, o best of está disponível desde a versão mais escorreitas (2 CD) à caixa de luxo; a nós coube-nos a belíssima edição de 3 CD, 1 DVD e booklet caprichado. Em todas as edições, transparece certamente a intenção de Nick Cave e dos seus Bad Seeds ao arrumar a casa: «Este disco pretende ser uma porta de entrada num catálogo de três décadas de música. É muita canção. Algumas são as obrigatórias dos concertos. Outras são menos conhecidas e estão entre as nossas favoritas. Outras são demasiado grandes e têm demasiada história para podermos deixá-las de fora. E ainda há as que não conseguiram entrar, coitadinhas. Essas terão de as descobrir sozinhos”.

“Imortal” será, naturalmente, um predicado de mau gosto a atribuir a Nick Cave ou qualquer outro humano. Mas o seu espírito, em palco ou em disco, podemos afiançar sem grande margem de dúvida que continua inquebrantável.