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Só estamos bem a dizer mal

Ao cabo de uma vida inteira, Portugal ganhou um certame em que sempre quis fazer boa figura. Naturalmente, não agrada a todos. Ou não fôssemos portugueses

Depois do silêncio de “Amar Pelos Dois”, canção com o raro dom de nos deixar caladinhos durante 3 minutos, chegou o ruído tonitruante, as conversas cruzadas, as caixas de comentários em brasa. Viva o Salvador, abaixo o Salvador.

Almejo, no dia em que me fartar deste burburinho permanente sobre tudo e mais alguma coisa (falo do ramerrame do parlapiê), conseguir comunicar através de frases feitas. Estou certo de que boa parte do meu dia-a-dia – o pagamento de um bilhete de comboio, a aquisição de um frango de churrasco, um convívio familiar menos desejado – continuará a decorrer com normalidade, com a vantagem de o esforço despendido ser consideravelmente menor (e, para me preparar para o pior, fui pilhar boa parte das asserções desta breve reflexão ao acervo do enorme Bom Povo). A verdade é que tenho sofrido muito com as pessoas à minha volta e já vi coisas que ninguém acredita.

Como não estou aqui para enganar ninguém, a propósito da vitória estrondosa de Salvador Sobral no festival da Eurovisão ocorre-me asseverar que há por aí muito boa gente a fazer pior figura (estou só a dizer o que me disseram!). Contra tudo e contra todos e, não obstante metade do país ter concluído, antes do certame, que assim não vamos lá, mais uma vez se constatou que as pessoas gostam muito de falar sem saber. Uns apressaram-se a dizer que “até eu fazia melhor”, provavelmente os mesmos que agora se choram com um dorido “tenho pena de não ter sido eu”. Quando é estas coisas, a polícia nunca aparece…

Por estes dias, Salvador Sobral – merecido vencedor de um festival onde, diz este inspiradíssimo (e muito divertido) articulista espanhol, fez tudo para não ganhar – reclamará, aqui e ali, com o brilho demasiado intenso dos holofotes. É humano. Quando, simpaticamente, acenou no aeroporto, à vinda de Kiev, não tinha dormido mais de duas horas. Já uma pessoa não pode ter sossego. Quando, daqui por uns meses, quiser cantar outra coisa que não a enésima variação de “Amar Pelos Dois”, desabafará: “só não faço mais porque não me deixam”. Isto parece a gozar, mas não é.

Puxando a brasa à minha sardinha, eu já sabia mas não quis dizer nada. É a vida.