Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Luísa e Salvador Sobral, em Kiev

Michael Campanella

Salvador Sobral não tinha uma canção “eurovisiva” - e ganhou a Eurovisão

Pela primeira vez, Portugal amealhou sucessivos 12 pontos e chegou ao final da noite em primeiro lugar. O grande responsável? Um miúdo de 27 anos que nunca tinha visto o festival

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Não fumo e pouco bebo, mas não consigo deixar de ler comentários na net. Estou convencida que, a médio prazo, o efeito dos mesmos poderá ser mais nocivo que o do tabaco, mas ainda assim continuo a deslumbrar-me com a inusitada crueldade dos meus companheiros de espécie - e, ocasionalmente, com o seu brilhantismo.

Quando Salvador Sobral se apurou para a final do festival da canção, ainda em Portugal, passei (perdi?) algum tempo a ler o que da sua atuação dizia "a internet" nacional. E não era bonito - digamos que, ao vê-lo confessar, no programa Alta Definição, que não tem Facebook nem frequenta redes sociais, senti um certo alívio.

Salvador Sobral não tem uma canção "eurovisiva", bradavam os fãs e conhecedores do certame, indignados. E vai ficar em último - vergonha, humilhação, tragédia. Algumas semanas mais tarde, cá estamos, neste rescaldo de 13 de maio, festejando o primeiro "caneco" (como lhe chamou José Carlos Malato, contagiado pela emoção) na Eurovisão.

No primeiro discurso após a retumbante vitória, Salvador Sobral manteve a postura que lhe conhecemos desde o momento inicial: aparentemente calmo ou até mesmo despreocupado, mas sem nunca perder de vista os princípios que norteiam a sua conduta.

Depois de obter, possivelmente, mais pontos do que Portugal alguma vez arrecadara na história da Eurovisão, o miúdo que nunca tinha visto o festival antes de nele participar lembrou: num mundo de música descartável, a Europa escolheu uma canção com conteúdo, sem foguetório ou aparato. E isso poderá ser um bom presságio.

Nunca se esquecendo de dividir os méritos da proeza com a irmã, autora da canção, e o responsável dos arranjos, Luís Figueiredo, a voz de "Excuse Me" evitou também entrar em nacionalismos bacocos: isto não é necessariamente bom para a música portuguesa, frisou, corrigindo o interlocutor, mas para a música, ponto.

Melómano assumido (disse mesmo que o apoio de Caetano Veloso vale bem mais do que o "caneco"), Salvador Sobral não vê as coisas de forma estanque e aproveitou a exposição mediática para falar sobre a crise dos refugiados (desta feita, a camisola teve de ficar no quarto de hotel, por imposição da organização - "e se tivesse uma t-shirt a dizer Adidas?", questionou) e a importância de uma canção bonita num evento dominado pela pirotecnia e pelo acessório.

Ainda que recuse, sensatamente, o estatuto de herói nacional que alguém na conferência de imprensa lhe tentou atribuir ("Acho que o herói é o Ronaldo"), Salvador Sobral não pode deixar de ser visto como um sinal de um Portugal diferente - menos complexado, mais confiante e certo de que o seu valor o poderá levar longe, mesmo que (neste caso) a bordo de uma língua imensamente menos atlética que o todo-poderoso inglês.

Ainda na conferência de imprensa, o jornalista que sugeriu o estatuto de herói nacional começou por introduzir: "Your country is amazing...", ao que o nosso representante respondeu apenas "yes". Sem arrogância, mas também sem falsa modéstia, um equilíbrio que, seja no futebol (impossível não traçar paralelos com a final do Euro e o também underdog Éder), na vida ou na arte, só poderá dar bons frutos.

Parabéns, Salvador - e obrigada!