Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Getty Images

As três razões por que Salvador Sobral pode ganhar o Festival da Eurovisão

Logo à noite, Salvador Sobral sobe ao palco do festival da Eurovisão como um dos principais favoritos. Miguel Cadete explica por que razão o entusiasmo não é exagerado, mas alerta que é preciso olhar para a história

1. Porque é politicamente correcto. Vale a pena não esquecer que o Festival da Eurovisão surge no seguimento da II Guerra Mundial. A primeira edição só tem lugar em 1956 mas é bem o espelho do clima de confraternização entre as nações europeias, empenhadas em não repetir os anos negros de conflito. O Tratado de Roma que viria dar origem à Comunidade Económica Europeia foi assinado um ano depois, em 1957.

Isto quer dizer que, além de uma competição de canções por parte dos vários países, há uma ideia, senão mesmo um ideal, de teor político muito vincado neste concurso desde os seus primórdios. Vale a pena não esquecer que a final deste ano tem lugar em Kiev e que a concorrente da Rússia foi impedida de entrar na Ucrânia precisamente devido ao conflito que opõe os dois países.

Salvador Sobral com as suas declarações pacifistas e a defesa que tem feito dos refugiados em várias ocasiões – e que creio ser sincera – encaixa às mil maravilhas na geoestratégia que preside ao Festival da Eurovisão, e que se pretende um Concerto das Nações ainda que com as nuances kitsch próprias de certo mundo do espectáculo.

A “neutralidade de Portugal”, que nunca venceu qualquer edição do certame, pode constituir um obstáculo, pois não deixa margem para o favorecimento de uma facção contra outra, mas também é possível beneficiar desse estatuto precisamente porque estamos do lado dos bonzinhos. E porque depois dos anos negros da troika começam a surgir bons resultados a ponto de o país poder abandonar em breve o Procedimento de Défice Excessivo. Tal como o Governo de António Costa, Salvador Sobral é um “bom aluno” desta Europa.

2. Porque a canção encaixa no cânone festivaleiro. Ainda que no Festival da Eurovisão existam duas tendências que se opõem desde sempre – a cantiga melodramática ou delico-doce e o monumento kitsch espampanante que se afasta provocadoramente do mainstream –, “Amar pelos Dois” é um excelente exemplo de composição capaz de apelar ao sentimento, com os incontornáveis arranjos de cordas românticos até se transformar em mel, interpretada por alguém capaz de representar o papel de cantor sofrido quase na perfeição.

Na história do Festival da Eurovisão há vários exemplos de canções que saíram vencedoras fazendo uso destes recursos em detrimento de uma alegria histriónica ou de uma agressão com intenções quase revolucionárias, como era o caso dos Abba com “Waterloo” (1974), de Dana International, Conchita Wurst ou dos caso mais radical dos Lordi, que venceram em 2006.

Para o que mais nos interessa, a participação de Portugal, atente-se em canções vencedores de grande pendor melodramático como “L’Oiseau et l’Enfant” (1977), cantada pela francesa de origem portuguesa Marie Myriam, o ecuménico “Hallelujah” (1979) por Gali Atari com Milk & Honey, “What’s Another Year” (1980) do sensível Johnny Logan (duas vezes vencedor) ou o hino à super-diva interpretado por Céline Dion, “Ne Partez Pas Sans Moi” (1988). É esta a escola de “Amar Pelos Dois”. Não dá garantias de vitória, como se pode ver pela armada excêntrica de vencedores com canções gaiteiras, mas pode ser um bom princípio.

E depois, claro, há Salvador Sobral. Não me lembro de existir, desde António Variações, um cantor capaz de gerar tanta empatia no público que não liga pevide à música. Intérpretes que pela sua forma de atuar marcam uma diferença que paradoxalmente gera carinho e é capaz de receber colinho por parte da esmagadora maioria donas de casa portuguesas. Alguém que sendo distinto e afastando-se da vulgaridade quanto à forma de estar em palco, é capaz de criar laços fortes de admiração, e presumo que de identificação, entre uma larga camada do povo.

Se é assim com os portugueses, presumo que Salvador Sobral seja capaz de provocar o mesmo frisson entre os estrangeiros. Se conseguir afetar os jurados da mesma maneira, a vitória está no papo.

3. Por uma questão de números. Não tenho notícia de que a delegação portuguesa esteja a desenvolver ações de diplomacia junto do júri para conquistar a vitória no festival recorrendo a esses jogos florentinos. Esse era um rumor que durante décadas, e ainda hoje, serviu para justificar a nossa fraca prestação no Festival da Eurovisão. Mas sei que as casas de apostas, todas elas, têm Salvador Sobral e a canção “Amar Pelos Dois” num muito consistente segundo lugar, só ultrapassado pelo italiano Francesco Gabbani com “Occidentali’s Karma”.

À hora a que escrevo, as apostam pagam, grosso modo, dois euros pela vitória do transalpino e três euros pela do português. De perto, segue a canção “Beautiful Mess” do concorrente búlgaro Kristian Kostov, mas todos as outras finalistas estão a uma distância considerável, pagando-se mais de 17 euros por cada euro investido em caso de vitória. As apostas, tal como as sondagens (à excepção das francesas) valem o que valem. Mas a verdade é que quanto aos prognósticos para a meia final em que o português garantiu o passaporte para sábado, as casas de apostas acertaram em nove dos dez finalistas.

De ciência certa, é o facto de apenas uma das canções se poder sagrar vencedora. A receção a “Amar Pelos Dois” garante-lhe um lugar entre os principais favoritos mas também é preciso olhar para a história. Até hoje, o melhor lugar conquistado por Portugal nas 48 edições em que esteve presente foi um honroso 6º lugar, obtido por Lúcia Moniz em 1996 com “O Meu Coração Não Tem Cor”.

Melhorar esse resultado já pode ser considerado uma vitória.

Publicado originalmente no Expresso Diário de 12 de maio.