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Um rapper que quer mudar o mundo

Chance The Rapper é um dos 100 humanos mais influentes do planeta de acordo com a revista Time. Um homem do rap com apenas 24 anos. Extraordinário, acredita Rui Miguel Abreu

A revista “Time” acaba de publicar mais um dos seus retratos do mundo através do filtro da edição especial que dedica às 100 Pessoas Mais Influentes. Não se escreve “do mundo” na capa – ou sequer no editorial que Nancy Gibbs assina – mas as tais 100 pessoas, arrumadas nas categorias de Pioneiros, Artistas, Líderes, Titãs e Ícones – vêm de vários pontos do globo, dos mundos das artes e da política, da ciência e do desporto, dos negócios e da religião, do ativismo social, da cozinha... Representam o que de melhor – e, nalguns casos – de pior o mundo tem para oferecer. Não é só de gente que nos quer dar a música mais incrível ou os filmes mais arrebatadores, ou de gente que quer inverter o aquecimento global, curar doenças, corrigir injustiças ou levar-nos para o espaço que se faz esta lista: também há aqui lugar para Vladimir Putin, para Donald Trump, para Tayyip Erdogan, para o general Qasem Solimani que comanda as tropas sírias, para Rodrigo Duterte que preside aos destinos das Filipinas com mão de ferro, para Kim Jong-un que nos mantém a todos em estado de alerta...

Por isso mesmo, mais importância ainda ganha a presença do jovem Chancelor Johnathan Bennett nesta lista. Chancelor, – Chance ou Chano para os amigos – acaba de completar 24 anos há um par de semanas, mas Common descreve-o como “o grande sonhador do hip hop”. O rapper veterano que nos habituámos a ver no grande ecrã foi o escolhido para assinar o texto que assinala a entrada de Chance The Rapper nesse exclusivo grupo de pessoas que estão a moldar o mundo do futuro. Escreve Common que “Chance eleva as expectativas sobre o que os artistas, sobretudo os artistas de hip hop, podem fazer”. “Ele disponibiliza os seus álbuns para streaming em vez de os vender. Ele faz música de uma perspectiva orgulhosamente cristã e inspiradora – música que transcende idades, raças ou géneros. Ele retribui à sua comunidade de Chicago. E faz isso tudo como um artista independente, sem o apoio de uma editora”. Common fala a verdade.

Poderia escrever que Chance será objecto de estudo nas universidades daqui a alguns anos, tal o impacto que está a registar na forma de pensar na gestão de carreiras, mas provavelmente a frase nem faria sentido porque decerto que isso já está a acontecer. Chance é um exemplo vivo e vibrante, que está aqui e agora, a criar música que celebra a vida e nos faz pensar, a servir de exemplo a incontáveis miúdos dos bairros menos privilegiados de Chicago, que está a investir o seu próprio dinheiro na melhoria de vida das pessoas em que ele mesmo acredita, as mesmas que o ajudaram a revolucionar a forma como consumimos música, a forma como as instituições – como os Grammys – olham para quem decidiu fazer as coisas de forma diferente. “Ainda bem que o Chance seguiu os seus sonhos”, escreve Common. Ainda bem, de facto. Um dos nossos poetas disse que é nesses momentos que o mundo pula e avança. Os poetas é que sabem. E Chance também é poeta: “I don’t make songs for free”, garante ele em Blessings. “I make them for freedom”. Lá está.