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Arca no Roundhouse, em Londres

Lindsay Melbourne

Terapia de choque com Arca em Londres

Concerto do artista venezuelano, colaborador de Björk, Kanye West e FKA Twigs, na sala Roundhouse, em Camden, foi uma experiência não aconselhável a pessoas impressionáveis

O percurso musical do venezuelano Alejandro Ghersi começou em 2012, com a edição de uma série de EPs, mas Arca, nome que escolheu para a sua persona musical, só começou a fazer-se notar verdadeiramente quando, no ano seguinte, surgiu nos créditos de produção de Yeezus, de Kanye West. Seguiram-se aplaudidas colaborações com a revelação de 2014 FKA Twigs e com a islandesa Björk no mais recente Vulnicura (2015). As portas escancararam-se à sua frente.

No ano passado, quando Frank Ocean requisitou a sua ajuda para Endless, o vídeo-álbum que antecedeu a edição de Blonde, Arca já se tinha afirmado em nome próprio. As eletrónicas experimentais de Xen (2014) e Mutant (2015) provaram que o músico venezuelano não estava fadado para ficar no relativo anonimato da sua condição de produtor de música de outros artistas. Alguns meses após a edição da mixtape Entrañas, regressou agora com um terceiro álbum, homónimo, que aprofunda a sua faceta de vocalista.

“Se não fosse Björk, não sei se teria cantado”, confessou recentemente em entrevista à revista i-D, “foi muito importante (…) não sei se teria conseguido ser tão corajoso se não a tivesse como amiga”. O resultado é brilhante, com tanto de enigmático como de violento... E deixou-nos curiosos: conseguiria transportar para palco, com a mesma coragem, a voz que marca uma metamorfose na sua linguagem musical? A resposta é sim. Com distinção.

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Na passada sexta-feira, tivemos o privilégio de ouvir as novas canções de Arca, ao vivo e a cores (e a preto e branco), no palco da sala Roundhouse, em Camden, Londres. Ajudado, de forma discreta, pelo parceiro habitual, Jesse Kanda, o venezuelano de 27 anos assumiu o protagonismo da sua nova condição de cantor e atirou-nos para uma viagem sensorial que nos deixou com pele de galinha ao som de "Anoche" ou da operática "Piel" e a tentar disfarçar o espanto quando, na eletrizante "Whip", "citou" o trabalho mais chocante do fotógrafo Robert Mapplethorpe ao exibir imagens vídeo, coordenadas com as chicotadas da música, de uma sessão de fisting (o pudor impede-nos de explicar). "Não entrem em pânico", atirou no final, "são apenas corpos".

Arca provou, acima de tudo, que não é unidimensional, que está pronto para entregar tudo o que tem para dar aos fãs: a voz suave contrasta com a postura provocadora e as indumentárias reduzidas (eufemismo) de estética sadomasoquista. Rastejou, passeou-se de salto alto, sempre, infiltrou-se no meio da plateia para gritar palavras de ordem na cara dos fãs enquanto se equilibrava nas mini-andas resgatadas ao vídeo de "Reverie"... Tema esse que, junto com "Desafío", marcou o ponto mais alto de uma atuação surpreendente. Para o final, já em tempo extra, regressou ao palco para, acompanhado de uma guitarra acústica, suavizar o ambiente. "Queria tocar isto e tinha prometido a mim próprio que não perderia a voz antes... Adivinhem? Perdi mesmo... Posso tentar, mas lembrem-se de que perdi a voz".

Não ouvimos, até ao momento, álbum que nos sensibilizasse mais este ano: Arca, interpretado integralmente em espanhol, é o momento de afirmação de Arca, um dos artistas mais excecionais e intrigantes da atualidade, e, avaliando pela sua prestação no palco do Roundhouse, quase apostamos que muito estará ainda para vir daqueles lados.