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Esta banda é um livro de reclamações

“English Tapas”, dos Sleaford Mods, é uma injeção em forma de álbum, uma bolsa de sanidade mental no meio da escalada do autoritarismo, do absurdo ‘Brexit’, do neoliberalismo, da vaidade e da vacuidade que nos entretêm. Saibamos ouvi-lo

Enquanto o mundo desaba e a fera ruge, as palavras amansam. Os tiques são doutrina, o palpite é lei, o egoísmo é individualismo. Não é defeito, é feitio — brando costume esse de só vermos o que nos interessa.

No tempo das marisqueiras tornadas mariscarias, do profano advento das rissolarias e das tascarias (o que é ‘googlável’ não mente), do crédito do toldo preto e do charme do mobiliário comprado na grande serração das coisas únicas, a música é feita de rodas de bagagem de mão no caminho entre o táxi inteligente e o apartamento de 15 metros quadrados que o empreendedor pensou para nós. “Porque é que este ano não cheira a sardinhas?”, ‘tuítamos’. Coma-se um Brás de bacalhau instead.

Não é só aqui. Jason Williamson e Andrew Fearn, o duo inglês que há vários anos vem pregando rajadas punk em base eletrónica rudimentar, entrou num pub de província no seu país natal e esbarrou num letreiro que anunciava “english tapas”, modernas versões miniaturizadas de comida de tacho. (Engendra-se o arrazoado para a separata de tendências: “dois amigos ingleses foram de férias ao sul de Espanha e, por entre abundantes pints de lager, enamoraram-se pela comida de lá, trazendo o conceito para a sua Broadbottom natal”.)

“English Tapas” é uma injeção em forma de álbum, um livro de reclamações de 37 minutos, uma bolsa de sanidade mental no meio da escalada do autoritarismo, do absurdo ‘Brexit’, do neoliberalismo, da vaidade e da vacuidade que nos entretêm. Canções como ‘Moptop’ ou ‘B.H.S.’, incisivas e pulsantes, diretas e despidas, são o eletrocardiograma de passageiros frequentes, mas não participantes, de uma vida low cost que nos consome.

Deixemos que os Sleaford Mods façam o seu trabalho: sem abanos como este, a morte será apenas descontinuação.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 22 de abril