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Ana Camelo - Bom de Papo (2009)

Acalanto, uma carícia transatlântica

Ana Camelo, mãe do músico brasileiro Marcelo Camelo, lançou um tocante disco-livro com a prata da (sua) casa

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

«Acalanto», sinónimo de carícia ou afago, é palavra com lastro na música brasileira: é, por exemplo, o título da ladainha que fecha um dos mais brilhantes álbuns de sempre (sem atenção ao passaporte): Construção, erguido em 1971 por Chico Buarque.

Acalanto é também o nome do barco lançado recentemente ao Atlântico pela família Camelo. Quem acompanha o trabalho dos brasileiros Marcelo Camelo e Mallu Magalhães poderá já ter intuído que a arte corre na família: Ana, mãe de Marcelo, sogra de Mallu, é matemática de formação mas, nos últimos anos, decidiu explorar o chamamento da pintura e da poesia.

No ano passado, juntou-se ao irmão, Luís Otávio, que é músico, e juntos urdiram Acalanto, um disco-livro onde 12 dos seus poemas se juntam a uma música brasileira na vocação, na natureza e no calor.

Nas palavras de Thiago Camelo, irmão de Marcelo e escritor que assina a introdução de Acalanto, «as músicas remontam ao calor, à ternura, à simplicidade, à observação cotidiana, mas também falam das delicadas tristezas e vivências de uma mulher de 65 anos. São sambas, bossas, baiões adornados pelas mãos talentosas e sensíveis do meu irmão», escreve, referindo-se a Marcelo, que produziu o disco no seu estúdio na Estrela, em Lisboa, e que dá voz a «Noite», a primeira canção do álbum.

Mallu Magalhães, estrela de primeira água no Brasil, esvoaça também com leveza de colibri em «Atraente», outro dos momentos mais graciosos de Acalanto que, na versão física, vem acompanhado por outros poemas (ainda) não musicados de Ana Camelo e por algumas das suas belas pinturas, uma espécie de naïf tropical e sempre caloroso.

Em entrevista ao site Uai, a poetisa e pintora, que já fez várias exposições no Brasil, fala desta «empreitada bem familiar, independente», na qual estiveram envolvidos o seu irmão, os seus filhos e as suas noras, como um objeto capaz de trazer «uma paz para quem o lê, o vê e o escuta».

Graças ao esforço deste mesmo clã unido, Acalanto já pode, mesmo sem ligação a qualquer editora, ser escutado nas plataformas de streaming. E vale a pena passear por canções como «Um Lugar» e sorrir com a aragem quente de um disco feito com o coração.