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Kendrick Lamar

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Tomai e comei: ainda há tempo para digerir os discos?

Na sexta-feira santa chegou o novo disco de Kendrick Lamar, no domingo de Páscoa os fãs já aguardavam um novo álbum. Ou de como o tempo de vida de um disco é cada vez mais fugaz

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Qualquer resistência será fútil: hoje, mais do que ontem e provavelmente menos do que amanhã, vivemos em tempos tão velozes que a digestão se faz praticamente em simultâneo com o consumo.

Trocando por miúdos, e aplicando a ideia à matéria que nos traz aqui, numa época em que muitos discos são lançados (ou seja, que surgem na net) sem anúncio prévio, não é de esperar que as primeiras críticas saiam na semana seguinte. Na verdade, proferir um veredicto no dia seguinte poderá já ser tardio – e assim se explica que, no dia em que Kendrick Lamar revelou ao mundo o novo DAMN, publicações como o Guardian ou o Stereogum se tenham afadigado a escrever os seus pareceres.

Não falo, reparem, de discos aos quais a imprensa musical tem acesso semanas antes da edição oficial (e que, como tal, temos tempo para escutar e – tentar – compreender), mas de lançamentos-relâmpagos que deixam os fãs sôfregos por ouvir e os críticos aflitos por avaliar.

Na sexta-feira santa, acordámos com a notícia de um disco novo de Kendrick Lamar, disponibilizado legalmente nos serviços de streaming após um leak maroto, horas antes. O entusiasmo, febril e justificado, ou não fosse DAMN o sucessor do ótimo to Pimp a Butterfly, encheu as redes sociais de pareceres e trocadilhos, memes e declarações de amor pelo rapper de Compton.

Mas a sede de novidade é, deste lado do primeiro mundo, tão aguda que o facto de Mr. Lamar ter presenteado os fiéis com 14 temas novos não chega. Ao longo de sexta e sábado circulou o boato, apoiado numa elaborada teoria de conspiração, de que o norte-americano se podia estar a preparar para lançar um segundo disco ontem, domingo de Páscoa. Entretanto, Cristo ressuscitou e parece que a única coisa que Kendrick tinha para nos oferecer era “apenas” DAMN, álbum que, como o resto dos fãs apressados, escutei às primeiras horas de sábado.

Como comecei por dizer, qualquer resistência é fútil: se os discos são editados de surpresa e os fãs os escutam de imediato, faz sentido que os primeiros artigos sejam escritos com igual rapidez. Muitas vezes, quando são realmente lançados, os álbuns já parecem "antigos" a quem os escutou com tanta antecipação e sofreguidão. Outro já tomou, até, o seu lugar. Mas por vezes parece-me que alguma ponderação – esse luxo dos tempos modernos – poderia ser saudável. Afinal, praticamente todos os discos que mais adoro seriam, no meu coração, apenas mais um disquito, se tivesse tido menos de 24 horas para decidir o que achava deles.

Deixemos a música respirar.