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O futuro dos media já começou

“Content marketing”, as marcas nos festivais, nos nossos hábitos de consumo musicais. É um admirável mundo novo. Habituem-se

Escrevo para papel há 28 anos e para várias plataformas na internet há um pouco menos de metade desse tempo, desde 2004. O futuro há muito que ameaçava desabar sobre as nossas cabeças, mas a verdade é que já chegou e não se pode dizer que não tenhamos sido avisados.

Há dias, um artista plástico, músico e editor que muito prezo, João Paulo Feliciano, manifestava-se publicamente no seu mural social contra o anúncio por parte do jornal "Público" de criação de um departamento de "content marketing". Escrevia João Paulo, não escondendo a sua indignação, que "o futuro do jornalismo, a existir, é precisamente na direção oposta a esta" declarando de permeio a sua intenção de deixar de comprar o jornal enquanto a direcção que tomou essa decisão permanecer em funções. Não me parece, perante o anúncio do Público, que se esteja a pretender alterar os fundamentos do jornalismo, antes a procurar novos paradigmas para o financiamento dos jornais. Coisa bem diferente.

Devo dizer que estranhei tão veemente tomada de posição por parte de um artista que compreendeu que até para viabilizar edições independentes é hoje crucial compreender as novas dinâmicas de marketing das grandes marcas. João Paulo assinou projectos que foram viabilizados pela Optimus Discos - hoje NOS Discos - e é conhecido o seu trabalho continuado de intervenção artística no NOS Primavera Sound, festival que deve parte importante do seu carácter distinto precisamente à sua visão.

As ligações do mundo da arte - das artes plásticas às performativas - ao mundo corporativo das marcas são profundas, longas e amplas, e graças a essas ligações existem hoje espalhados pelo mundo exemplos notáveis de arte pública, importantes festivais e carreiras artísticas de mérito indiscutível. Estou seguro de que o jornalismo e os jornalistas saberão procurar idêntico equilíbrio para se atingir um plano de saudável e estimulante coabitação entre o que será do domínio editorial ético e o que se encaixará sem disfarces no que agora se identifica como "content marketing".

Na discussão gerada pelo referido post, e para que contribuiram alguns jornalistas, eu incluído, o autor fez ainda saber que por causa do actual estado das coisas deixou igualmente de comprar outras publicações, incluindo a revista BLITZ. Confesso uma certa perplexidade perante tais afirmações: é precisamente porque as publicações tradicionais têm visto a sua circulação decrescer que é necessário procurar novos modelos de sobrevivência financeira.

De um Vilar de Mouros inocente nos anos pré-revolução, nascido do sonho progressista de um homem, aos incríveis cartazes que este ano se alargam dos Red Hot Chili Peppers aos Depeche Mode, de Future a Aphex Twin, das rádios livres no alvor dos anos 80 à Beats 1 da Apple que não se importa que Frank Ocean toque o mesmo tema em loop durante uma hora para uma audiência global, de Basquiat a pintar palanques em Nova Iorque a Vhils a aceitar encomendas de importantes museus que sobrevivem à custa de mecenas, das cassetes gravadas a partir do Som da Frente, de António Sérgio, às playlists do Spotify que hoje partilhamos com amigos vai a distância do progresso, da evolução tecnológica, das transformações geracionais e culturais que a passagem do tempo implica.

Antes não era melhor, era apenas diferente. É com a diferença que temos que aprender a viver. Defender a permanência de uma coisa quando tudo à volta se altera, até nós mesmos, não parece fazer sentido. E é disso que se trata: de fazer sentido num novo estado de coisas. O importante é que os jornais e as revistas descubram uma forma de sobreviver. Pode ser que um dia destes o João Paulo e todas as outras pessoas mudem de ideias e voltem a comprar as publicações que abandonaram. Mas isso só será possível se elas ainda cá estiverem...