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O álbum morreu, viva a playlist?

Uma reflexão sobre More Life, o mais recente fenómeno carimbado por Drake

O hip hop, quer se queira quer não, é a principal banda sonora do planeta neste momento. São os números - massivos e expressivos - que o dizem. O hip hop será, por isso mesmo, o género que melhor tem conseguido equilibrar a delicada balança com que se procura pesar a arte e o comércio. Mas também a tradição e a inovação.

Os sinais de que os paradigmas estão a mudar são múltiplos: as instituições que alteram regras que se mantiveram imutáveis durante décadas para poderem acomodar trabalhos de artistas que reinventaram o conceito de consumo (vide Coloring Book, de Chance The Rapper, e os Grammys); os vídeos que parecem cada vez mais serem pensados para a escala dos ecrãs dos smartphones; os serviços de streaming como plataformas preferenciais para a divulgação de novos trabalhos ao invés das rádios; as redes sociais como palcos para a construção de relações directas entre artistas e os seus fãs, sem o filtro dos media tradicionais.

Perante este novo cenário, os artistas têm procurado redefinir conceitos. Tal como o álbum nasceu da moldura proporcionada pelos dois lados de um LP - 40 minutos que ofereceram à pop na segunda metade dos anos 60 uma escala diferente daquela que tinha sido proporcionada pelo single meia dúzia de anos antes - também as plataformas de streaming, suporte preferencial para a apresentação de novos trabalhos nos dias que correm, estão a obrigar os artistas a repensar os seus discursos: os 80 minutos de More Life - como os de VIEWS - parecem servir melhor os dias de hoje, em que as pessoas ouvem música nos transportes ou quando fazem exercício.

More Life - garante, por isso mesmo, Drake - não é um álbum, como VIEWS. Também não é uma mixtape, como If You're Reading This it's Too Late. É uma playlist. E, neste caso, uma palavra faz uma enorme diferença. Tal como os dois exemplos citados anteriormente, More Life é, na verdade, um conjunto de canções escritas sobre produções originais. O que é novo aqui, então? Se um artista em 2017 vai para estúdio para responder ao momento - e o momento pode ser o resultado de uma emoção, uma nova ideia estética, um capricho, a vontade de deixar uma marca em cima da criação de um produtor particular - e, ao fim de algum tempo, descobre que tem um folder recheado desses momentos, uma playlist pode ser a forma de organizar material disperso, sem a necessidade de um fio condutor que tantas vezes uma mixtape possui (responder a uma situação específica, como aconteceu com If You're Reading This..., por exemplo) ou de uma seriedade artística que um álbum supostamente ainda implica.

Neste trabalho, Drake organiza os temas por moods, como numa emissão de rádio, explicou ele a DJ Semtex. E Drake, um dos principais rostos da rádio da Apple, a Beats 1, deve saber do que fala. Há interlúdios falados - de Moodymann, da sua própria mãe -, há sons de diferentes contextos geográficos (Londres está bem presente), há trap e o que agora se descreve como afrobeat, há temas de quarto e de pista de dança... Soa como uma playlist, de facto.

Já se conhecia o curador como autor - basta pensar em DJ Khaled, por exemplo -, mas Drake propõe agora a novel ideia do autor como curador. Neste caso da sua própria obra, mas nada impede que este conceito se alargue e aplique a outras ideias: Drake a assinar uma playlist de grime ou de beats globais, Drake a mostrar-nos o output presente da sua Toronto, da sua OVO ou das suas influências... em More Life até já se escutam ecos de Jennifer Lopez ou R. Kelly...

Em Times Square, Nova Iorque, um billboard gigantesco homenageia Biggie Smalls com um sentido R.I.P.. É um anúncio à playlist Rap Caviar que contabiliza seis milhões de seguidores no Spotify e que por isso tem força suficiente para pagar o metro quadrado de publicidade mais caro do planeta. E com More Life a bater recordes e a contabilizar 350 milhões de plays na primeira semana, ao que tudo indica, este pode ser o caminho. Depois de Kanye West ter usado The Life of Pablo para nos obrigar a repensar o conceito do álbum, Drake pode ter agora espetado o derradeiro prego no caixão de um formato com meio século de uma gloriosa história. 50 anos depois de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band.