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Father John Misty no NOS Alive

Rita Carmo

Em Amesterdão com Father John Misty

Há uma semana, assisti a um concerto “intimista” do homem que os pais batizaram como Josh Tillman. Sem truques, sem danças, mas com canções do tamanho do mundo

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

O convite era irrescusável: três concertos intimistas em Paris, Amesterdão e Londres, ao longo de uma semana em que Father John Misty começaria, com a companhia singela de um pianista, a apresentar ao vivo as canções do novo Pure Comedy, nas lojas no início de abril.

Conseguida entrada para a soirée holandesa, na passada terça-feira, “estudei” a matéria o melhor que pude. As 13 canções desta espécie de diário de Josh Tillman, que trago (como diria Manel Cruz) “na parte interna dos ouvidos” desde fevereiro, altura em que entrevistei o norte-americano, já se encontram por esta altura em alegre loop na minha memória. Sabemos que um disco está a ser bem “absorvido” quando acordamos com uma e outra música na cabeça, sem razão aparente, como termos escutado o álbum na noite anterior. E, ainda que denso na aparência, Pure Comedy tem, como os anteriores discos de Father John Misty, todas as condições para se alojar no nosso sistema de som interno, ao fim de poucas audições.

Ao chegar ao Zonnehuis, um pequeno teatro plantado no meio de uma zona residencial, no norte de Amesterdão, já uma discreta multidão se reunia à entrada. As portas abriam às 19h30 e às 19h25 o quórum estava completo para que, dali a pouco mais de uma hora, uma das personagens mais intrigantes do pop/rock atual assomasse em palco – sem aviso, de roupa encorrilhada e casaco largueirão, e com um pianista a acompanhá-lo na maior parte das cerca de 20 canções que nos ofereceria, sem pausas nem truques, nas próximas duas horas.

Sentada ao lado de duas simpáticas holandesas que se apresentaram como donas de uma fábrica de vinil, assisti então a um concerto bastante atípico desta personagem que o próprio garante não ser uma persona – apenas uma versão “mais madura e mais honesta” daquele que em tempos assinou discos como J Tillman.

Se em ocasiões anteriores, como nas passagens por Paredes de Coura ou pelo NOS Alive, Tillman trouxe o seu jogo de anca e os seus passos de dança, elevando consideravelmente a temperatura corporal dos presentes, em Amesterdão – tal como parece ter acontecido em Paris e, depois, em Londres – a ênfase esteve toda nas canções e, sobretudo, nas palavras. Desde o arranque, com “Pure Comedy” (tema-título do terceiro álbum, nas lojas a 7 de abril), até à despedida, com uma doce versão acústica de “I Love You, Honeybear”, do seu álbum de 2015, todas as canções foram apresentadas ou ao piano (tocado pelo seu parceiro), ou à guitarra acústica (apenas duas foram usadas ao longo de toda a noite). De fora do pequeno palco do Zonnehuis, construído em 1932 com uma missão comunitária, ficaram assim os majestosos arranjos que podemos ouvir em disco – mas ninguém se terá queixado quando os sopros de “Total Entertainment Forever” (a canção mais imediata do disco) foram substituídos pelo assobio de Misty, truque que voltou a usar para colmatar a falta de efeitos de “Smoochie” (“ficou mesmo bem, vou voltar a gravar a canção, com o assobio em vez da guitarra”, comentou aquele que, numa das incontáveis entrevistas que tem dado, confessa que desde criança ouve a mesma queixa: “nunca sei quando estás a falar a sério ou a brincar”).

De braços atrás das costas ou mãos enterradas nos bolsos, Father John Misty poderia parecer menos cativante, mas a convicção que coloca em cada tirada e a forma cristalina como as entrega (adaptando uma deixa do seu novo disco, the oldest man in folk rock sings, e de que maneira) arrebata a plateia, respeitosa quase em excesso (após cada canção terminar, há uma espera de três ou quatro segundos, com os holandeses, muito recetivos ao humor de letras como “Ballad of the Dying Man” ou “The Memo”, receosos de começarem a aplaudir antes do suspiro final de cada música).

Mais descontraído na segunda metade do concerto, após “despachada” a imponente “Leaving L.A.” (uma autobiografia de 15 minutos, que termina de tocar com um aceno de desculpas e o comentário: “acho que precisamos todos de uma bebida depois disto”), Father John Misty ainda aceitou alguns pedidos do público (curiosamente, todos de ... Honeybear: “I Went to the Store”, “Bored in the USA”, “Holy Shit”, “Chateau Lobby”...) e sentou-se um pouco ao piano. “Desculpem-me: eu sei que não sei tocar, mas gosto de brincar com esta coisa”, explicou, tendo apresentado dessa forma “exploratória” uma comovente versão de “Trump’s Pilot” ou uma canção nova que rogou que ninguém gravasse. “Pode ser? Depois não tem tanta graça, quando quiser gravá-la num disco. Não quero ver isto num blogue ou no Soundcloud, com o título Folk Rock Trickster Troll...”, justificou, causando mais risadas com um humor que é tão impiedoso com os outros como consigo mesmo.

“Estavam todos a ter um bom dia, antes de serem atropelados por estas canções?”, troçara antes. “A partir de agora só vou tocar os hits”.

Não tocou, claro. Por muito pegadiças que sejam várias das suas canções, Father John Misty mais facilmente consegue permear a roda dentada das notícias de música graças às suas entrevistas “escandalosas” (em 2017, é escandaloso um músico falar em LSD – como é que chegámos aqui?) do que às maravilhas que opera em momentos como “A Bigger Paper Bag” ou “Things That Would Have Been Helpful to Know Before the Revolution”.

Nada disto implica que Pure Comedy não seja (mais) um grande álbum, que vamos continuar a “desembrulhar” ao longo dos próximos meses, seguindo até algumas pistas do que vimos no concerto de Amesterdão. Venham os concertos com banda, também, de preferência em Portugal.

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