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Volta, Jesus, estás perdoado

A propósito do regresso de uma certa irmandade, do brilho raro de um comeback e da maior paciência que deveríamos ter com quem merece

É dos livros: as reuniões e os regressos após ausência prolongada até podem dar concertos que aquecem o coração, mas muito raramente resultam em novos discos dignos de afeição. Ou porque a centelha dos artistas não existe mais, ou porque nós é que já não somos os mesmos, ou porque acontecem as duas coisas anteriores. Nisto da matéria que nos toca fundo não se pode ser vulgar: somos assolapados no momento certo, cruéis quando o ritmo bate a descompasso.

Mas a crueldade que devotamos aos regressos mal sucedidos, fraudulentos ou meramente despropositados (posso provocar e escrever aqui LCD Soundsystem?) deveria ser proporcionalmente compensada pelo entusiasmo em torno dos comebacks em cheio – é uma questão de equilíbrio cósmico, quase. Só que não. Somos blasé, dizemos que “até não correu mal”, falamos em “regresso digno” ou que “não envergonha”. Às vezes não correu apenas benzinho, correu até melhor do que muitos discos do passado que incensámos só porque o momento o pedia.

2017 tem sido assaz simpático no retorno à atividade de velhas glórias (umas mais efémeras do que outras) de um passado não demasiado distante para uns (os velhadas, aqueles para quem Cobain se finou anteontem), do tempo do Antigo Egipto para outros. Por estes lados abraçou-se, sem resistência, o muito bem desenhado primeiro disco dos Grandaddy em 11 anos (como não aderir, instantaneamente, a “Way We Won’t”?), louvou-se o charme do novo assalto dos Ride (está aqui “Charm Assault”, que não me deixa mentir) e fez-se a devida vénia aos Slowdive (que têm em “Star Roving” uma canção do outro mundo). Se em relação aos primeiros é possível assegurar que o longa-duração é de muito boa cepa, os restantes terão de esperar por vaticínio mais avalizado (os discos inteiros, com edição prevista para os próximos meses, ainda não chegaram aos ouvidos do escriba).

Aterrou hoje o primeiro disco dos Jesus and Mary Chain em 19 anos e é crença firme de quem escreve estas linhas que se entrarem por ele adentro sem desconfiança sairão muito bem recompensados. Damage and Joy teria cabimento em 1990, 2000 ou 2010, não mostrando qualquer vestígio de ferrugem. É uma espécie de síntese de todos os álbuns pós-Psychocandy, o inigualável (e por isso, sabiamente, pouco revisitado por aqui) álbum de 1985.

Os irmãos Reid, aparentemente apaziguados, fazem duetos inspiradíssimos com vozes femininas (Isobel Campbell, Sky Ferreira e não só), põem a acidez a dançar com a candura (o lado psycho e o lado candy, afinal), atacam riffs que apetece trazer por perto. Sempre tristes, sempre luminosos. Em suma, decidiram assumir a missão de mostrar ao resto do mundo como se faz um álbum à Jesus and Mary Chain. Cuidado copiões, eles estão de volta.