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Rita Carmo

As canções como karma

Nas entrevistas que vamos fazendo este ano, a situação política acaba por vir quase sempre à baila. Para Mark Eitzel, as canções são (bom) karma, para Father John Misty um disco pode oferecer “conforto e beleza” ao ouvinte

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Nas últimas semanas, praticamente todas as entrevistas que realizamos aqui na BLITZ acabam por passar – independentemente da nacionalidade do nosso interlocutor – pelo momento político que atravessamos, a nível internacional.

No início do ano, por exemplo, Ana Bacalhau, dos Deolinda, lembrava que “o bem-estar humano só vai ser atingido se preservarmos o bem-estar do nosso planeta, onde somos [meros] convidados”, alertou. “Se o destruirmos, destruímo-nos a nós e à possibilidade de vivermos aqui”. Para a cantora, em Portugal o cenário, a esse nível, é animador. "Mas tenho muito medo em relação ao que se está a passar ao nível político pelo mundo: Estados Unidos, Brasil, a possibilidade da extrema-direita na Europa… Preocupa-me a regressão de alguns direitos humanos, ambientais e animais”, rematou.

Estava dado o mote para um ano de discos que refletem diretamente o estado das coisas ou cujos autores tentam, pelo menos, emprestar algum conforto aos ouvintes, numa época de relativa turbulência e incerteza.

Recentemente, Mark Eitzel resumiu esta intenção com uma frase contundente: “As canções são karma. [Com as minhas canções], estou só a tentar gerar algum karma para mim e para as outras pessoas”, confessa o autor do novo, e belo, Hey Mr Ferryman. “Todos gostávamos da ideia de a América ser uma força do bem. Na verdade, há muitos anos que já não o era. Mas agora, com supremacistas na Casa Branca, é mesmo o mal”, lamentou.

Na mesma altura, e diretamente de um pub londrino, Guy Garvey, dos britânicos Elbow, considerou a vitória do Brexit uma das piores coisas que viu acontecer, a nível político, nas suas quatro décadas de vida. Lembrando que a cidade de que é natural, Manchester, é conhecida pela sua vibrante vida académica, com muitos alunos vindos de outros países, o vocalista concordou com a minha interpretação: em 2017, as canções pintalgadas de gospel do último Little Fictions podem muito bem emprestar conforto a quem as ouvir. “É o melhor que nós, como banda, podemos oferecer às pessoas”, disse-nos.

Em Pure Comedy, nas lojas a 7 de abril, Father John Misty fez um disco denso, com letras complexas mas de uma ágil elegância, e múltiplas referências ao que vemos hoje acontecer, na política, nas redes sociais e nas cabeças humanas. Os arranjos, porém, são por vezes de grande simplicidade, deixando respirar a mensagem. “As letras são tão densas, que quis dar às pessoas algum conforto, alguma beleza”, concordou. “O [anterior] I Love You, Honeybear era tão vulnerável que eu estava com medo e tapei esse medo com todo o tipo de instrumento. Neste, nem sequer há reverb nas vozes. É muito direto”, explica, comentando ainda a reação dos media e da sociedade à atuação do novo presidente norte-americano: “Sinto que quase chegámos a um ponto em que ignoramos a realidade da nossa vida. Estamos tão embrenhados na [discussão política], é isso que faz com que o psicopata continue. Se todos ignorassem as notícias e ignorassem o Presidente e fizessem o que queriam, não haveria forma de as parar”, considera.

Se tem sido um ótimo ano de música, 2017 tem também oferecido um manancial de boas entrevistas, ou conversas frutuosas, com músicos que não ignoram o mundo em que vivem. A acompanhar nos próximos números da BLITZ.