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Quando uma banda é um velho amigo que regressa

A propósito de “Spirit”, o novíssimo álbum dos Depeche Mode

Sincero serei: desliguei-me dos Depeche Mode após Ultra, disco que, à época, encarei como um esforço digno de uma banda veterana em manter-se sintonizada com os tempos modernos. A verdade é que além de “Barrel of a Gun” e “It’s No Good” nada guardei do disco de 1997. “Esforço digno” é a bula da condescendência.

Em 2001, quando a banda – já então ciosa dos seus intervalos de quatro anos entre álbuns – lança Exciter, o meu mundo era outro. Como escriba, dedicava-me a quadrantes distintos (a verve rock estava a renascer) e, sagazmente, não fui chamado a fixar prosa a propósito de uma banda sobre a qual outros experientes camaradas tinham muito mais a arrazoar.

Não vivi o “rebentamento” dos Depeche Mode em direto nos anos 80 e a primeira cumplicidade com Dave Gahan e companheiros dá-se com Songs of Faith and Devotion, quando o grupo (que se tornou maior depois de Violator) já é outra coisa. Tivesse eu hoje 15 anos e já não seria capaz de falhar os concertos das Antas ou Alvalade como fiz em 1993 (sim, dois concertos de estádio por cá em cidades diferentes e dias consecutivos). Só alguns anos depois consegui aprofundar o que estava para trás, cimentando uma relação que descreverei como a de fã empenhado mas moderado (tenho as compilações de singles, fui mais sovina nos álbuns avulso).

Por falta de interesse e por falta de necessidade, sou incapaz de distinguir qualquer álbum dos Depeche Mode pós-Ultra. Os singles não me pescaram, as parangonas não me cativaram e eu estive “noutra”. Às vezes não és tu, sou eu – como se fartou de ouvir George Costanza no Seinfeld. Se há uma semana me tivessem mostrado Playing the Angel, eu teria rabujado “estão sempre na mesma, os Depeche Mode”, tomando-o por álbum novo. Só que saiu em 2005.

Por conveniência (e porque assim é mais fácil viver), julgamos a maior parte das nossas decisões como traves-mestras e fundações necessárias (para o bem ou para o mal), mas às vezes basta um clique para que a mais firme convicção se desmanche. Aos primeiros acordes pesados de piano de “Going Backwards”, reencontrei a secura rítmica, a voz despida de Dave Gahan e a severidade negra que fez com que, no tempo das Descobertas, me tivesse agarrado a esta banda. É desolação pura, mas interpretada com galhardia. Tem um pouco de “Stripped”, mas não é descaradamente revisionista. A letra, essa, é um desfile de vítimas de guerra. Sinto-me no dia de hoje e sinto os Depeche Mode a reverberar o dia de hoje.

Pouco depois, ouço Dave Gahan a apontar-me(-te-nos-lhes) o gatilho por cima de um tapete de teclados gélidos. (“You’ve been kept down / You've been pushed ’round / You’ve been lied to / You’ve been fed truths / Who’s making your decisions? / You or your religion / Your government, your countries / You patriotic junkies”). “Where’s the Revolution?”, pergunta no refrão. É uma canção política e, vaga q.b., acerta no alvo.

Ao cabo de duas canções, estou com vontade de me render. E isso, diga-se o que se disser, conta para nota. “The Worst Crime”, esparsa e económica, mostra um Gahan inspiradíssimo, a pontuar cada palavra com um peso raro. Mais adiante, reencontro a soul atormentada de “Condemnation” (o zénite dos Depeche Mode?) em “Poison Heart”, canção sobre uma amizade (amor?) sem remédio, com açúcar (música) e fel (letra) no refrão. E ainda há “So Much Love”, que tem algo de “Policy of Truth”, uma espécie de western sci-fi, Depeche Mode tão exemplarmente vintage.

Spirit, que hoje é de todos, é um velho amigo que regressa. Não quero saber onde andaste, fico feliz que estejas bem, ainda bem que vieste. Eu cá vou andando.