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Esta língua é nossa: a de Carlos do Carmo e a de Capicua

Rui Miguel Abreu gosta de música. Também gosta de história. E de conversar. Tudo na nossa língua

Participei, não tenho problema algum em admiti-lo, no longo debate inglês/português que durante tanto tempo nos dividiu. E também não me causa mossa alguma admitir que sinto já ter estado dos dois lados da barricada. Hoje, o debate pouco me importa, confesso também, mas isto porque tenho ideias mais firmes onde antes, se calhar, só existiam ideologias mais ou menos ingénuas. Hoje sei que é com esta língua que podemos e devemos reinventar o nosso futuro.

Há um par de anos, depois de ter falhado a primeira edição do festival O Sol da Caparica por me encontrar hospitalizado, propus uma ideia a António Miguel Guimarães: após anos de trabalho, do lado do jornalismo, mas também do lado da indústria discográfica (Nortesul/Valentim de Carvalho, Loop:Recordings...), sempre em torno da música feita e ouvida por cá, não deixei de perceber com entusiasmo que se tinha aberto espaço para eventos que se programavam em torno da nossa identidade linguística. Sem outros argumentos.

Ao homem do leme d'O Sol da Caparica, figura histórica da nossa indústria, propus um livro que se focasse em conversas que explorassem a relação entre a nossa língua e a música. Quando me pediu um título, o António Miguel não estaria certamente à espera que eu me tivesse esquecido da minha ideia inicial. Quando falei com ele só fui capaz de lhe dizer que o tinha aqui mesmo, "debaixo da língua". E assim ficou.

Estou agora de volta do terceiro volume, depois de já ter entrevistado Sérgio Godinho e Carlos Tê, Kalaf e Capicua, Marcelo D2 e Emicida, Pedro Silva Martins e Miguel Araújo, Márcia e Samuel Úria, António Pinheiro da Silva e Ana Moura, Boss Ac e Vitorino... A ideia de passar horas a falar de música e de som e de palavras e de ideias e de sotaques e de sensibilidades e de poesia e de melodias com quem tanto sabe só me anima.

Ontem voltei, pela terceira ou quarta vez, a casa de Carlos do Carmo. Para falar sobre as suas palavras e os seus poetas de eleição, para ouvir histórias sobre Ary dos Santos e Graça Moura, para sentir todo o peso do seu espírito crítico. Honesto, aguçado, transparente. É um privilégio ter este trabalho e um privilégio que um almoço rápido no Rossio tenha possibilitado o embarque nesta aventura.

Vivemos todos debaixo da mesma língua. Carlos do Carmo não se esquece. Não se esquece quando, mesmo antes do gravador se ligar, elogia sem qualquer tipo de interesse Sam The Kid, Capicua e Pedro da Silva Martins, que considera ter escrito um dos dois grandes fados destes últimos 20 anos, não se esquece quando evoca José Afonso (ele trata-o por Zeca...) e José Carlos Ary dos Santos (o seu Ary...). Beber desta memória vale muito. Para mim vale mesmo muito.

Em breve começaremos a desfiar o novelo destas conversas. Com sol, com luz, com ideias e com esta língua, tenho hoje uma certeza: não me apetecia estar em mais lado nenhum. Este é o país que temos que transformar e melhorar e reinventar. E esta língua debaixo da qual todos vivemos é a melhor ferramenta para isso. Deitemos mãos a essa construção, como o Chico fez um dia. E amemos desta vez como se fosse a primeira.