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M.I.A.

A canção política na era Trump: três novos episódios

A cada semana vão surgindo novas canções que assim se juntam a um coro que começou a ganhar forma ainda antes da eleição. Nestas primeiras semanas de nova administração há novas canções de M.I.A., Portugal The Man e Joey Bada$$.

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

A mensagem que os Arcade Fire deixaram na canção estreada na véspera da tomada de posse do 45º presidente dos EUA fez já de “I Give You Power” um entre os episódios mais sonoros de um coro que, como cada dia que passa cada vez mais sugere, não deverá fazer silêncio ao longo dos próximos quatro anos. O grupo canadiano cantava-nos, ali, “dou-te o poder, mas posso tirar-to”. Era uma mensagem concisa e simples na forma e muito clara na interpretação. A esta canção juntaram-se, entretanto, outras mais. E a elas devemos reunir também as que antes, ainda durante a campanha, e no período que se seguiu à noite eleitoral, nos deixaram ver que, como há muito não acontecia neste tom, a canção política estava não só viva num tempo de tantas distrações e sugestões de lazer, mas com vontade de ser uma voz de alerta e esclarecimento.

Vale por isso a pena ir acrescentando, aos poucos, os novos termas e telediscos que em conjunto farão um dia o cancioneiro de referência da canção política da América na era Trump. E por isso, passado pouco mais de um mês sobre a tomada de posse da nova administração, há aqui três novas canções a ouvir...

Uma das mais fortes e diretas entre as canções nascidas após um mês de administração Trump vem assinada por uma voz que há muito nos mostra formas de usar a música para abordar grandes questões políticas e sociais do nosso tempo. M.I.A., que é também autora de uma das mais cativantes discografias deste início de século, tem no seu novo “P.O.W.A” (lê-se “power”) um reflexo claro do mesmo sentido de apelo à consciência popular à qual os Arcade Fire chamavam a responsabilidade de agir em “I Gave You Power”.

Demarcando-se de outras vozes femininas, da pop contemporânea – e cita inclusivamente os nomes de Rhianna, Madonna, Ariana Grande ou Mariah Carey – numa letra que refere ainda explicitamente comparações com o Dalai Lama e Barack Obama, na qual responde à sugestão de ódio com amor e na qual o desafio à expressão do poder popular surge com claro protagonismo quando canta “I know my mind / In me I'm gonna find / This is my time / And I'm searching for the signs / Throw up my hands / Say this is people power / Throw up my finger and I'm taking on the Tower”... As palavras recorrem a uma ideia clássica da “torre” que representa o poder como destino da manifestação de quem levanta o dedo e assim expressa o descontentamento popular. A torre aqui é, contudo, mais do que uma ideia. E basta termos passado por Nova Iorque ou lido as notícias dos últimos meses para reconhecermos, afinal, a que torre se refere.

A juntar à canção e ao teledisco (simples, mas eficaz) com que a apresenta, a voz política de M.I.A. tem vincado as suas opiniões através de breves mensagens no Twitter, algumas tendo recentemente descrito a administração Trump como sendo feita de “mentirosos patológicos”.

Outra importante adenda a esta história da canção política na era Trump chega através do projeto indie Portugal The Man, num teledisco que anuncia a chegada de um novo álbum. Entre as imagens de “Feel It Stell” há, como o sugere o press release de lançamento da canção, uma série de easter eggs através dos quais se revela um número de telefone da Casa Branca e ligações a sites que têm apoiado algumas acções de protesto, entre as quais a American Civil Liberties Union, ONG que esteve particularmente ativa por alturas da emissão da primeira Ordem Executiva que tentou barrar a entrada nos EUA de cidadãos de sete países de maioria muçulmana. Este single serve de aperitivo para um novo álbum deste projeto com origens no Alasca e que regressa aos discos após uma pausa de quase quatro anos.

E fechamos este trio de novas adendas a este cancioneiro em construção com “Land of the Free”, um tema através do qual Joey Bada$$ presta homenagem a Martin Luther King, ao mesmo tempo deixando passar pelas palavras ecos dos cenários e protagonistas mais recentes da cena política norte-americana. Ele mesmo diz-nos ali que “300-plus years of them cold shoulders / Yet 300 million of us still got no focus / Sorry America but I will not be your soldier / Obama just wasn't enough — I need some more closure / And Donald Trump is not equipped to take this country over”, fazendo estas rimas parte de um todo que acompanha com um teledisco que revela aos poucos uma carga de violência que sublinha a presença de alusões bem claras ao Ku Klux Klan.

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