Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Laura Marling

Os discos têm prazo de validade?

Graças ao streaming e outras plataformas, o ritmo com que consumimos música é cada vez mais voraz. Poderá um disco que ainda não saiu parecer-nos «antigo»?

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Como qualquer pessoa que tenha crescido nos anos 90, habituei-me a estimar os discos que, por vezes, demorava meses a conseguir comprar. Tendo vivido entre Porto e Lisboa, não falo necessariamente da dificuldade em encontrar certos álbuns, mas sim do modesto fundo de maneio para adquirir as novidades que mais me interessavam. Entravam aí em jogo as famosas cassetes, gravadas pelos amigos que já tinham «aquele» disco, ou até com várias canções que as rádios iam passando.

Com o passar dos anos, tive o privilégio de ingressar num meio onde a música «chove» com alguma facilidade. Mas, mesmo que não recebesse, das editoras, cópias promocionais dos lançamentos da temporada, ou links para escutá-los em streaming, a montra de música ao meu dispor é hoje infinitamente superior àquela de que dispunha na adolescência.

Basta que plataformas como o Spotify ou o bom «velho» Youtube existam para que, em poucos minutos, possa alternar entre a «fruta da época» e uma pérola esquecida dos anos 70, sem sequer ter de percorrer as estantes em busca do CD ou vinil respetivo.

O que até há alguns anos poderia parecer um cenário de ficção científica é agora a nossa realidade, e é curioso parar um pouco para refletir sobre alguns dos seus efeitos.

Se dantes, por só ter acesso a um disco ou dois discos por mês, acabava por memorizar cada canção ao mais ínfimo pormenor – ao ponto de, até hoje, me recordar na perfeição de letras e alinhamentos –, hoje passo facilmente da paixão ao relativo esquecimento.

Por exemplo: no início deste ano recebi a cópia promocional (CD enviado à imprensa antes da saída de um disco, geralmente sem capa ou booklet) de Semper Femina, o novo álbum de Laura Marling. Já lhe conhecia o excelente single, «Soothing», e facilmente passei a escutar as restantes oito canções todo o santo dia, deixando-me encantar pelo misto de naturalidade e magia com que a britânica continua a costurar palavras e melodias.

I Speak Because I Can, dizia Laura ao segundo álbum, lançado em 2010. Sete anos mais tarde, já vai no sétimo longa-duração e não só fala porque pode – fala quando tem algo para dizer, e continua sem dar um passo em falso, o que ainda é mais fascinante atendendo à sua tenra idade.

Em Semper Femina, continuamos a sentir ecos de Bob Dylan e Joni Mitchell, mas também de John Fahey (na guitarra de «Nouel») ou até dos Radiohead (há algo no ambiente final de «Soothing» que nos leva para os últimos discos dos ingleses). Independentemente das influências ou afinidades, contudo, a linguagem que Miss Marling fala é indubitavelmente sua.

Como se pode reparar, é um disco com o qual já sinto a familiaridade de um velho amigo. Foi assim com espanto que, ao ver uma amiga partilhar no Facebook as primeiras canções conhecidas de Semper Femina, percebi que o álbum ainda nem sequer chegou às lojas.

É pois altura de compensar este delay e recomendar vivamente a escuta atempada das novas canções de Laura Marling, gravadas em Los Angeles com o guitarrista Blake Mills como produtor. Afastada do bulício quotidiano dos fait divers noticiosos, a cantora, compositora e guitarrista lança na próxima sexta-feira, dia 10, uma autêntica joia de disco, seja qual for a folha do calendário em que decidamos começar a descobri-lo.