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Falar, cantar, gritar

A canção de protesto volta a estar na ordem do dia, mas por que razão não existe produção cultural operária em Portugal desde que essa era uma coutada do PCP? A pergunta é de Miguel Cadete, no editorial da BLITZ deste mês

É recorrente: a canção de protesto volta a estar na ordem do dia. Lá fora, como cá dentro. Ainda que a diferença entre o que se passa em Portugal e nos territórios que se afirmaram como grandes produtores de música popular seja avassaladora.

Claro que o fenómeno Trump ajuda. E muito. Não são ainda evidentes os resultados do apoio que mil e uma estrelas do rock e do hip-hop ofereceram a Hillary Clinton durante a campanha presidencial. Na verdade, o efeito até pode ter sido o contrário daquele pretendido. Vale a pena não esquecer que Donald Trump, pelo menos durante a campanha eleitoral, assentou o seu discurso numa luta entre ricos e pobres, banqueiros e povo. E tudo o que se podia perceber das inúmeras vedetas que apoiaram Hillary Clinton era não serem propriamente remediados.

O movimento de resistência que agora se ensaia afigura-se diverso. O que entretanto eram promessas passaram a ser medidas executadas pela administração, e o choque com a realidade, à semelhança do que sucedeu com o Brexit, pode doer mais. Porém, o perfil dos opositores mantém-se. Os U2 não podem ser classificados de arrivistas. Não só porque o seu combate a Trump foi público ainda ele era candidato, mas também porque a banda tem uma história de engajamento que outros colossos do rock não se podem gabar.

Mas, lá está, eles não serão dos mais desfavorecidos; não é também o caso de Madonna, Adele, Roger Waters, Elton John, R.E.M. ou Beyoncé… Mas é salutar que uma banda com o seu estatuto reveja os planos estabelecidos para 2017 à luz do resultado eleitoral da eleição presidencial de novembro. É fácil apontar exemplos entre os que, com uma dimensão similar, se mantiveram no sossego do lar. Mas está é também a tour de force dos próprios U2: uma forma de os quatro rapazes de Dublin ainda encontrarem significado para aquilo que fazem. É, por isso, e muito obviamente, uma espécie de tudo ou nada. Nesta digressão em que recuperam o álbum The Joshua Tree, os U2 não jogam apenas o futuro do novo presidente dos EUA. Eles estão, muito provavelmente, a jogar o seu próprio futuro.

Por cá, os 30 anos da morte de José Afonso têm passado relativamente despercebidos. Há livros e homenagens, mas continua-se sem questionar o papel da canção de protesto. Hoje. Porque ela é tão inexistente desde 1974 com as exceções dos Resistência, Pedro Abrunhosa e, em plena troika, dos Deolinda? Porque será que uma classe de músicos maioritariamente recrutada na classe média alta tem dominado a música portuguesa nas últimas décadas? Enfim, porque não existe produção cultural operária em Portugal desde que essa era uma coutada do PCP?

É hora de discutir isso mesmo antes que cá chegue o «nosso» Trump. Depois, já pode ser tarde.