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O que é raro é caro (mas às vezes não presta para nada)

O mundo da falsa exclusividade: entre a irrelevância e a ganância

Há poucos anos, a revista Mojo resgatou ao baú da música esquecida o álbum único de Simon Warner, músico inglês que, na segunda metade, dos anos 90 fez, com pompa mas pouco barulho, pop orquestral capaz de rivalizar com os então mui "over the top" Divine Comedy.

Até aí, a história não tinha guardado Waiting Rooms, coleção de canções de voz rouca e orquestrações bem gizadas, num sítio de relevo, mas também não o tinha escondido - até porque a edição não foi de vão de escada; pertencia à Rough Trade. Não consagrado como relíquia, o disco tinha até aí trocado de dono, no mercado da segunda mão, por valores irrisórios (não muito distantes do que aqueles que se pedem, hoje, por Fin de Siècle, dos Divine Comedy, um muito mais incensado disco da época que, por apenas um euro, pode vir parar às suas mãos).

Com os elogios da Mojo e a aura de "disco perdido", a procura disparou e o disco tornou-se, repentinamente, difícil de encontrar, aparecendo aqui e ali (no eBay, no Discogs, no "marketplace" da Amazon), a conta-gotas e a preços de raridade (o Discogs anota €29,34 como o valor mais alto pago por ele, mas o mercado de segunda mão da Amazon chegou a anunciá-lo ao dobro e ao triplo desse valor).

Contudo, Waiting Rooms, tendo sido um disco que passou despercebido no seu tempo (foi um flop, se quisermos simplificar), não é um disco raro. E, passado o momento de súbita reapreciação, voltou em força ao mercado dos discos usados, ao ponto de regressar hoje a valores inferiores a €2,50.

Numa altura em que a aposta da indústria passa pela edição de versões limitadas (vinil, vinil, vinil), exclusivas e numeradas, caixas antológicas com toneladas de memorabilia e pacotes luxuosos que podem incluir de réplicas de cassetes a action-figures, a condição de raridade é dada à partida. À semelhança do que acontece com os mais onerosos volumes da Taschen, a valorização do produto adquirido é garantida. Concorde-se ou não, é negócio e funciona.

E depois há pedaços de plástico barato, CDs como Waiting Rooms, falsas raridades medidas pela especulação. Um fenómeno que alastra e toma proporções ridículas quando por uma edição de 2000 (com cinco faixas extra) de Her Wallpaper Reverie, dos Apples in Stereo, alguém atira o barro à parede e pede quase 900 euros; ou quando, para deitarmos mão ao primeiro álbum dos Low (uma edição de 1994, não de 1964), em segunda ou terceira mão, é preciso desembolsar mais de 40 euros. A minha preferida: Serene Velocity, um best-of (um best-of, caramba) dos Stereolab não baixa das 20 libras esterlinas no "marketplace" de usados da Amazon (e já esteve muito mais caro).

É o mercado, estúpido - dirão. É o mercado estúpido (sem vírgula) - direi.