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Cinco musicais recentes bem mais interessantes do que “La La Land”

Ninguém duvida que o filme de Damien Chazelle se sagre como o grande vencedor dos Óscares deste ano. Mas aqui ficam exemplos de outros musicais recentes, todos deste século, e bem mais desafiantes (nas imagens, nas histórias, na música) do que “La La Land”, filme tecnicamente irrepreensível, mas que joga sempre em terreno demasiado seguro

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Ninguém duvida que a noite de domingo se transforme num verdadeiro festival de consagração do favoritismo com que o filme musical de Damien Chazelle La La Land para a cerimónia dos Oscares da Academia. Aclamado em muitas premiações das diversas associações profissionais (nem todas, já que a de argumentistas lhe fez claramente frente ao apontar a outras escolhas), La La Land soma 14 nomeações para 13 categorias, tendo dois temas a concorrer para Melhor Canção Original, que é um daqueles Óscares que por nada lhe deve escapar.

Que fique desde já claro: La La Land não é um filme mau. É apenas razoável, se bem que tecnicamente impressionante e na verdade mais cheio de ecos do passado que com vontade em levar o cinema musical a novos destinos. Não é de todo a maravilha maior que tamanha concentração de nomeações pode fazer supor. De resto, de A Paixão de Shakespeare de John Madden a O Artista de Michel Hazanavicius, não faltam entre os títulos aclamados pela Academia exemplos de obras que consagradas numa noite de prémios, anos depois, caíram relativamente no esquecimento e dificilmente encontrarão lugar nos relatos dos movimentos verdadeiramente marcantes da história do cinema.

Cantar certinho ou muito afinado não faz sempre de um artista um artista melhor. É verdade. E quem acompanha a história da música popular sabe disso. E até a da música contemporânea. O compositor John Tavener, por exemplo, deixou-se encantar pela voz natural e pouco polida de Björk e chegou a compor para a islandesa uma peça simplesmente arrebatadora. E ninguém vai comparar se todos ganhamos mais com os pregos de fora do canto de um Johnny Rotten ou até mesmo de um Lou Reed ou com o aprumo, mas sem rasgo de personalidade e criatividade, de tantas vozes apenas afinadas que somaram êxitos mas pouco ou quase nada juntaram à história da música senão a sua presença nas listas de sucessos.

La La Land é um pouco como essas vozes certinhas. Não falha uma nota. Foi pensado ao detalhe e não faltam ali ecos de memórias do musical clássico como quem procura caução de um passado do qual quer ser herdeiro. Mas, além dos feitos na bilheteira, que assinatura vai deixar na história do cinema. Em primeiro lugar não há hoje um sistema de produção que, como na Hollywood de outros tempos, saiba explorar a continuação imediata do impacte de um fenómeno como este (nem mesmo a série de sucesso Glee). E casos como o do medíocre Emo, The Musical, que há dias vi em Berlim, filme que se podia apresentar como um possível novo foco de interesse para quem (re)despertou para o musical via La La Land, lembram como o filme de Damien Chazelle será mais um oásis bem povoado de receitas e prémios do que nascente para outros acontecimentos imediatos.

Na verdade, e apesar de não estarmos num tempo em que o musical está permanentemente na ordem do dia – como acontecia nos tempos de um Singing in The Rain, um Hello Dolly ou um West Side Story – o cinema nunca deixou de abordar o género. E muitas vezes com maior ousadia formal, musical e temática do que aquilo que vemos em La La Land.

Aqui ficam então cinco exemplos de musicais estreados nos últimos dez anos e que são decididamente mais interessantes do que aquele que certamente já canta vitória antes mesmo da cerimónia o consagrar.

Hedwig and The Angry Inch, de John Cameron Mitchell (2001)

Esta era na origem uma peça de teatro musical nascida nos espaços off-Broadway que, transformada em fenómeno de culto, acabou por conhecer adaptação ao cinema pelo seu próprio autor, cabendo-lhe (tal como em palco) vestir a pele do protagonista. Uma história que tem as memórias da Berlim dividida de outros tempos, com uma protagonista transgénero nascida do outro lado do muro é acompanhada por música de fulgor rock’n’roll com alma ora glam ora punk, mas com luminosidade pop e pontual tempero country. O filme gerou um disco de tributo com versões das canções por Yoko Ono, as Breeders ou Cindy Lauper.

Sweeney Todd – O Terrível Barbeiro de Fleet Street (2007)

Tim Burton adaptou ao cinema um musical de palco com texto de Hugh Wheeler e música de Stephen Sondheim. Não era a primeira vez que a música tinha lugar de destaque em obras do universo de Tim Burton, representando até filmes como O Estranho Mundo de Jack ou Charlie e a Fábrica de Chocolate verdadeiras incursões do universo visual do realizador por diálogos com a música (nesses casos de Danny Elfman). Mas o que aqui acontecia era o estabelecimento entre o teatro musical e as marcas de identidade (fortíssimas) de um realizador de cinema.

Across the Universe, de Julie Taymor (2007)

As canções dos Beatles estão por todos nós assimiladas de tal forma que, com elas, podemos recordar momentos das nossas vidas ou contar episódios de histórias de outras pessoas (reais ou de ficção). Foi com um corpo de canções dos Beatles nas mãos que este filme partiu para contar uma narrativa de ficção. 34 canções dos fab four são aqui encarreiradas na evolução de uma trama que assim ajudam a contar, a maioria em versões vocais por elementos do elenco, contando a banda sonora com as presenças de figuras como as de Bono ou Joe Cocker.

As Canções de Amor, de Christophe Honoré (2007)

Um musical pop contemporâneo nasce entre uma narrativa com contornos identitários e que tem por cenário a cidade de Paris nos nossos tempos. Se o tema pode trazer algo de mais visível do que até então era habitual no cinema musical, é contudo na forma de usar o quotidiano da cidade por cenário e no conjunto de canções, compostas por Alex Beaupain e interpretadas pelos próprios atores, que surgem os argumentos que fizeram deste filme de Christophe Honoré um caso de sucesso. As canções tiveram depois edição em disco.

God Help The Girl, de Stuart Murdoch (2014)

Era na origem um projeto de filme, do qual a dada altura só existia a banda sonora mas que, resolvidos os problemas (de orçamento e produção), lá acabou por chegar ao grande ecrã. Na origem do projeto (tanto na escrita do argumento como, depois, na cadeira da realização) está o músico escocês Stuart Murdoch, principal timoneiro criativo e vocalista dos Belle & Sebastian, banda cuja sonoridade não anda muito longe das canções que servem esta história de músicos, e na qual surge entre os protagonistas o jovem Olly Alexander, hoje conhecido como vocalista dos Years & Years.

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