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30 anos sem o senhor José Afonso

Em véspera do 30º aniversário do desaparecimento de José Afonso, Rui Miguel Abreu presta-lhe a devida vénia

Acho muito curiosa a norma do New York Times de se referir sempre às pessoas nos seus textos como Mr. ou Ms.: Mr. Snoop Dogg, Mr. Kendrick Lamar... Há uma certa dignidade reverencial no tratamento. Na nova edição da revista BLITZ, que aterra nas bancas já na próxima sexta-feira, escrevo sobre os últimos passos de José Afonso, os anos da sua doença, que ainda assim foram anos de intensa atividade artística que resultaram no histórico registo ao vivo no Coliseu e nos derradeiros Como se Fora Seu Filho e Galinhas do Mato.

Neste texto, como noutros que assinei a propósito do homem de Cantigas do Maio, resisti à tentação de usar o diminutivo “Zeca” por achar que traduz uma familiaridade ou uma proximidade que eu não tive: não pisei o palco do Coliseu ao seu lado em 1983, não estive em estúdio com ele, não caminhei ao seu lado pelas ruas de Coimbra, nunca o visitei na sua casa de Azeitão. Não consigo tratá-lo dessa forma. O que não significa que não admire profundamente a sua obra e que fora da página não solte, em conversas informais, um “Zeca” aqui e ali. E não significa, igualmente, que não compreenda quem não partilhe desta minha algo inexplicável reserva.

É certo que nunca tratei o Bob Dylan por Robert ou o Tom Waits por Thomas, mas esses senhores sempre estamparam esses nomes nas capas dos seus discos, ao contrário de José Afonso. E por isso a resistência que na minha cabeça é sinal de respeito. Para mim, o homem que para tantos é Zeca é José porque gosto demasiado dele, do que criou e do que nos deixou. Só por isso.

Amanhã, completam-se, portanto, 30 anos sobre o seu desaparecimento. Estava eu à beira da minha maioridade e recordo o pesar que o meu pai sentiu pela morte do seu “Zeca Afonso”. Um par de anos antes tinha presenteado o meu pai com uma cópia do álbum Fados de Coimbra e Outras Canções, disco que talvez seja o seu favorito, afinal de contas são canções sobre a nossa terra. As minhas preferências são outras, recaem sobre a sua discografia clássica da Orfeu nos anos 70, mas tenho um espaço especial na minha discoteca para Galinhas do Mato, um álbum que julgo não ser suficientemente celebrado por toda a gente que trata o José por Zeca, talvez por ser o disco em que mal aparece, aquele que nos deixou pouco tempo antes de morrer. Mas eu vejo-o, precisamente, como um trabalho de quem resistia ao avanço da doença, com ideias melódicas e líricas notáveis, com aproximações à modernidade eletrónica – José Afonso ainda teve tempo de confessar (a Viriato Teles, se não me falha a memória) admiração pelas potencialidades do computador, com um abraçar admirável do balanço que a sua memória guardou dos anos passados em África.

Amanhã completam-se 30 anos sem o senhor José Afonso: ouvi-lo continua a ser das mais importantes coisas que podemos fazer; e celebrá-lo, uma justa forma de o resgatar à morte.

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