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Tratar da saúde aos músicos

Fazer face a tratamentos médicos dispendiosos é cada vez mais complicado nos Estados Unidos, onde vários músicos recorrem a campanhas de angariação de fundos

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Já aqui falei do novo disco de Mark Eitzel, um dos mais belos que o norte-americano gravou nos últimos anos e uma das novidades mais bem-vindas deste arranque de ano. Na semana passada, pude entrevistar este que é um dos meus intérpretes favoritos de sempre, aflorando ao de leve a ameaça que constitui, para classes algo desprotegidas como os músicos não milionários, o custo dos cuidados de saúde nos Estados Unidos.

Há alguns anos, Mark Eitzel sofreu um ataque do coração. Hey, Mr. Ferryman, o título do seu novo disco, não se refere ao facto de ter visto mais de perto a grande ceifeira, garante ele, mas sim a uma noite em que, «já muito estragado», escreveu a sua morada para que um taxista o levasse a casa, em Nova Iorque. Mas é evidente que o susto de saúde o marcou, e que tem consciência de que poderia ter corrido bem pior.

«Sem o Obamacare, teria perdido tudo o que tenho», afirmou ao San Francisco Chronicle, referindo-se às medidas implantadas pelo antigo Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, rumo a um maior acesso aos cuidados de saúde. «Nesta altura estaria a fazer um programa do Kickstarter, que é coisa que nem sei fazer», confessa ainda.

Perante o elevado custo da maioria dos tratamentos médicos, é a esse expediente – o das campanhas de angariação de fundos – que recorrem muitos músicos. Recentemente, os Afghan Whigs juntaram-se a vários convidados de luxo, como Josh Homme, Moby ou Mark Lanegan, em vários concertos cujos lucros reverteram na íntegra para custear o tratamento de Dave Rosser, guitarrista da banda, a quem no ano passado foi diagnosticada uma forma inoperável de cancro do cólon.

Além dos espetáculos, que aconteceram em Los Angeles e New Orleans, os amigos de Rosser empenharam-se também numa campanha da Go Fund Me que conseguiu angariar quase 60 mil euros. Numa mensagem dirigida a todos os que contribuíram, o músico agradeceu não só a ajuda financeira, vital para poder fazer face aos tratamentos, como a reserva de ânimo que receber donativos de tantas pessoas lhe emprestou.

Ainda mais recentemente, Erica Buettner, cantora e compositora norte-americana que passou uma generosa temporada em Portugal, revelou que, no regresso a Nova Iorque, soube sofrer de uma forma grave de cancro da mama.

«Encetar esta batalha ao mesmo tempo que vamos lendo estas notícias faz-me sentir que tanto o meu mundo interior como o exterior estão completamente virados do avesso. Vou buscar força à ideia de que uma crise desencadeia sempre uma reação, daqueles que amam, têm esperança, ensinam, criam e defendem aquilo que é certo numa altura em que tanta coisa está em risco», escreveu Erica Buettner no Facebook.

A quantidade de portugueses que comentaram a sua publicação é testemunho dos laços que a artista, que chegou a cantar com Frankie Chavez ou Beautify Junkyards, deixou por cá. No ano passado, ainda antes do diagnóstico, Erica partilhou a imagem de uma caneca com sardinhas que lhe ofereceram quando deixou Portugal, escrevendo: «É muito mais que uma caneca de café. São aquelas sardinhas, são as saudades e é um novo começo, tudo ao mesmo tempo. Podem tirar a miúda de Lisboa, mas não podem tirar Lisboa da miúda».

Para todos os que sintam tocados pela sua voz ou pela sua história, o link para ajudar é este.