Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

A Beyoncé o que é de Beyoncé

Adele recebeu o Grammy para Melhor Álbum do Ano. Se Rui Miguel Abreu fosse o patrão dos Grammys, a estatueta estaria agora em cima da lareira de Beyoncé

Instituir significa, também, preparar para resistir. Uma instituição pode, por isso mesmo, ser uma forma de resistência. À mudança, por exemplo. Ao progresso. À transformação. E, de certa maneira, é isso que os Grammys têm feito: resistir à mudança!

Vem isto a propósito da polémica gerada pela entrega do galardão de Álbum do Ano, a mais cobiçada das distinções da instituição criada pela Recording Academy, uma associação de músicos, engenheiros de som, produtores, artistas e outros profissionais da indústria musical americana. Uma congénere da Academy of Motion Picture Arts and Sciences que rege outra instituição, os Óscares.

Procura-se muitas vezes equacionar a distinção de Álbum do Ano como uma recompensa atribuída aos maiores trunfos da indústria discográfica, ou seja aos artistas que mais vendem. Mas os Grammys nascem de uma associação de artistas e técnicos, não apenas de editores: distinguem – ou é suposto distinguirem – trabalhos que refinam paradigmas técnicos e artísticos, que reinventam ou criam novos paradigmas. E a verdade é que o Melhor Álbum do Ano até nem tem propriamente sido entregue apenas a campeões de vendas.

Só neste milénio, por exemplo, a estatueta de Álbum do Ano foi atribuída à banda sonora do filme Oh Brother, Where Art Thou?, e ainda a trabalhos de Santana, Steely Dan, Norah Jones, Outkast, Ray Charles, U2, Dixie Chicks, Herbie Hancock, Robert Plant com Alison Krauss, Taylor Swift – por duas vezes –, Arcade Fire, Adele – também por duas vezes –, Mumford & Sons, Daft Punk e Beck.

Para se ter uma ideia, neste milénio, a lista de perdedores na categoria de Álbum do Ano inclui artistas como Eminem, TLC, Missy Elliott, Justin Timberlake, Alicia Keys, Usher, Kanye West, Gnarls Barkley, Lil Wayne, Beyoncé, Rihanna, Lady Gaga, Kendrick Lamar, Frank Ocean, Pharrell Williams ou Drake (sim, também inclui outros como Chris Stapleton, Ed Sheeran, Jack White, Foo Fighters, Dave Mathews Band, Coldplay, Radiohead ou Green Day).

A verdade é que se premeiam mais homens do que mulheres, mais brancos do que negros, mais veteranos do que jovens valores, mais tradicionalistas do que vanguardistas. Ou seja, há uma norma.

Este ano, é verdade também, a instituição ofereceu sinais de progresso: redefiniu regras de acesso às nomeações, facto que permitiu que um artista que nunca vendeu uma cópia de um disco como Chance The Rapper fosse distinguido com estatuetas nas categorias de Melhor Novo Artista, Melhor Álbum de Rap, Melhor Performance de Rap. Redefiniu parâmetros para acomodar o facto de artistas como Drake, que viu “Hotline Bling” merecer dupla distinção em categorias específicas dentro do Rap, já não poderem ser vistos apenas como rappers. Mas, por outro lado, ao “conter” o impacto de Lemonade de Beyoncé distinguindo-o apenas na categoria de Melhor Álbum Urbano Contemporâneo (o que eles inventam...) a Academia parece tentar fechar os olhos ao progresso.

A divisão foi tornada mais dramática tendo em conta as apresentações de Bey e Adele: uma foi expansiva, desafiante de um ponto de vista artístico, técnico, espiritual, social, histórico até; outra foi contida, minimal, sem nada que levante questões de espécie alguma; uma assumiu-se definitivamente deste tempo e apontou para o futuro; outra mostrou-se sem nada que a prenda ao agora e ao aqui. Esta Academia parece continuar a ter problemas com o progresso. E parece resguardar o prémio de Álbum do Ano como uma espécie de símbolo de um certo status quo.

O hip hop enquanto corpo estético tem, sem a menor sombra de dúvida, oferecido alguns dos maiores exemplos de arrojo e avanço artístico deste milénio, mas tirando o OVNI que foi o galardão atribuído aos Outkast por Speakerboxx / The Love Below em 2004 (em ano em que se encontravam nomeados ainda trabalhos de Missy Elliott, Evanescence, Justin Timberlake e The White Stripes) não se pode dizer que o género tenha sido devidamente representado nesta que parece ser a mais nobre das categorias dos Grammys. Ao contrário do rock, pop, jazz, folk, country, todos com múltiplas conquistas.

Premiar Adele – pela segunda vez! – em vez de Beyoncé não pode ser um gesto visto exclusivamente através da lente racial, como alguns comentadores tentaram fazer, embora esse factor não possa ser descurado. Mas é óbvio que os Grammys ainda não conseguem lidar inteiramente com o facto de os modos de criação estarem a mudar, a ser questionados diariamente, com o papel de artistas, músicos e produtores, de autores e arranjadores estar as ser permanentemente questionado em trabalhos como To Pimp a Butterfly ou Lemonade, The Life of Pablo ou VIEWS, álbuns do ano, obviamente, daqueles que forçam avanços e estabelecem novas formas de pensar e estar na música e que marcam e influenciam gerações. Muito mais do que, arrisco, trabalhos como 25 ou 1989. Onde uns apontam para o nascimento, ou seja para o passado, outros parecem estar mais interessados em apontar para o presente que nos envolve a todos. Pode ser que para o ano a Academia entenda isso.