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Adele e Beyoncé nos Grammys 2017

Getty Images

Adele vs. Beyoncé: o racismo dos Grammys

Lemonade não venceu o prémio de melhor álbum, perdendo para 25, da artista britânica, e a polémica estalou. Mas serão os Grammys realmente racistas?

Tendo de escolher entre Lemonade, verdadeira obra-prima de Beyoncé, e 25, terceiro álbum da britânica Adele, para atribuir um prémio a um deles, levar para uma ilha deserta ou ouvir num dia especial, escolheria sempre, sem hesitar um segundo, Lemonade. Tal como escolheria Channel Orange de Frank Ocean em detrimento de Babel dos Mumford and Sons (que venceu em 2013 o Grammy de melhor álbum) ou o álbum homónimo de Beyoncé e não Morning Phase de Beck (que foi o disco escolhido em 2015). Lemonade é um álbum magistral, interpretado de forma irrepreensível, composto por canções fortes, algumas delas com mensagens importantes. No entanto, na edição deste ano, os Grammys resolveram distinguir 25 com o título de Melhor Álbum do Ano. E a polémica estalou, com as acusações de racismo e apelos a futuros boicotes a chegarem de toda a parte, incluindo de Sufjan Stevens e Annie Clark (St. Vincent). A própria Adele declarou, ao receber o prémio, que o galardão deveria ter ido parar às mãos do seu ídolo, Beyoncé.

Um prémio é um prémio, tal como uma lista de melhores álbuns do ano é uma lista de melhores álbuns do ano. Em última instância, e por muito que custe acreditar nisso, por trás de ambos há sempre um grupo de pessoas com opiniões. E, como se sabe, as opiniões e os gostos pessoais não são coisas objetivas. Continuo a gostar de acreditar que não há um grande plano para menosprezar artistas negros. Haverá sempre quem discorde e haverá sempre quem concorde com a atribuição de um prémio (lembremo-nos da atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan e toda a tinta que se gastou a discutir o assunto), mas penso que as proporções que esta questão em torno de Lemonade e os Grammys tomou não são justificadas.

De há 30 anos até este momento, levaram o prémio de Melhor Álbum para casa Quincy Jones (1991), Natalie Cole (1992), Whitney Houston (1994), Lauryn Hill (1999), Outkast (2004), Ray Charles (2005), Herbie Hancock (2008)… Todos eles artistas negros. Não é muito, sem dúvida, quando comparando com os artistas brancos que conseguiram tal feito. Mas, no top 10 de artistas com mais Grammys de todos os tempos estão Quincy Jones, logo na segunda posição, mas também Stevie Wonder, empatado com… Beyoncé, com 22 prémios, e Kanye West e Jay Z (ambos com 21). Beyoncé é, inclusivamente, a segunda mulher com mais prémios de sempre – atrás de Alison Krauss, artista country que iniciou a sua carreira uma década antes de as Destiny’s Child aparecerem e que tem 27 galardões na prateleira –, logo seguida de Aretha Franklin e Alicia Keys. Quincy Jones, Beyoncé, Jay Z e Kanye West fazem também parte do top 5 de artistas com mais nomeações de sempre

Se os Grammys fossem assim tão racistas, Chance the Rapper não teria vencido, no passado domingo, três prémios (incluindo o de Melhor Novo Artista), contrariando as críticas de Frank Ocean quanto ao apoio a jovens artistas negros, Solange não teria ganho um prémio também, Weeknd, Skip Marley, Gary Clark Jr., Alicia Keys, A Tribe Called Quest (com Anderson .Paak e Busta Rhymes), Chance The Rapper e John Legend não teriam atuado, não haveria tantos nomeados não brancos… E Beyoncé não teria vencido o prémio de Melhor Vídeo por “Formation”: tanto a canção como o teledisco têm uma forte componente política – foram até bastante criticados por isso, colocando bem o dedo na ferida de uma América dividida por questões raciais – e mesmo assim foram distinguidos com um prémio. Não me parece coisa de somenos importância.

OK, Beyoncé não levou o prémio principal para casa. Merecia? Merecia, sem dúvida. Mas tal, provavelmente, atribui-se a uma questão de gostos das pessoas que decidiram quem levaria o prémio para casa. E o facto de terem gostado mais do álbum de Adele do que do álbum de Beyoncé não faz, necessariamente, dessas pessoas racistas. Não julgo que haja uma fórmula científica para determinar quem ganha um prémio destes, mas é impossível negar o impacto que 25 teve em termos de vendas – valendo isso o que vale, só nos Estados Unidos, onde os Grammys são atribuídos, foram mais de 9 milhões de exemplares; Lemonade não chegou aos dois milhões –, de expressão nas plataformas de streaming e airplay nas rádios. Há muito racismo no mundo, tal como há muita misoginia, homofobia (quando, em 2015, Beck venceu o prémio de melhor álbum, batendo, além de Beyoncé, Sam Smith, ninguém acusou os Grammys de homofobia) e xenofobia, mas, muito sinceramente, não me parece que o facto de, este ano, o grande prémio ter ido parar às mãos de uma artista branca (e inglesa, já agora) e não às de uma artista negra seja racismo declarado.