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Empreendedorismo e música para 2017: Portugal tem medo da música?

Muitas startups começam já a mudar a indústria e a própria forma de criar, ouvir e sentir a música, bem como a sua relação com os fãs. Mas Portugal permanece ao lado desta evolução. David Serras Pereira, advogado especialista na indústria da música, oferece-nos uma visão geral do que se faz lá fora e do que tem impedido que se faça cá dentro

David Serras Pereira

David Serras Pereira

advogado especialista na indústria da música

Startups e música são duas palavras difíceis de conciliar? Por vezes parece que sim. Em Portugal, claramente. Da minha experiência junto do ecossistema empreendedor poucas foram as startups que se apresentaram como ligadas ao ramo da música (lembro-me de uma em particular: TagJam, do Philipe Lobo Kung… e que ideia!!!).

Dispositivos Médicos, Turismo, Fintech e…. música? Não. Não porquê? É óbvio que o nosso mercado musical é pequeno, é limitado, não é escalável, como testar o MVP? Difícil. E investidores para startups nesta indústria? Existem? Interessados?

Facilmente, quem queria investir pensa no possível insucesso destes projetos, pois por um lado há um pessimismo na capacidade de realização do modelo quer no canal B2B quer no cana B2C. No primeiro, existe uma dificuldade prática de “vender” a criação à indústria (produtoras, editoras, artistas, etc…) que é, já por si, desenvolvida e que integra agora nos seus quadros decisores vindos das BigTech (que, por sua vez, também vão buscar os seus Diretores de Licenciamento à Indústria Tradicional); no segundo, a economia de licenciamento é demasiado complexa e fracionada (e as complexidades técnico-juridicas acrescidas das próprias tradições dos “modelos de negócio” imensas) para se apostar. Teria de se ter a certeza. E no mundo do risco – ou do investimento/capital de – as apostas têm de ser certeiras.

O receio de entrar num red ocean também é justificado. A SoundCloud, o Shazam, o Spotify, The Echo Nest, e muitas outras já criaram o seu blue ocean e inovam constantemente, deixando a possível entrada neste mercado demasiado sangrenta para resultar. Mas será isto mesmo 100% verdade? Não existirão outros caminhos? Nem todas as startups têm de ser unicórnios, nem todas as soluções são “inescaláveis” por serem criadas/testadas no nosso mercado.

Sem medo do passado – e algumas soluções alavancadas nas ofertas o mercado instalado – um considerável número de soluções tem surgido no mercado internacional. Vejam-se os exemplos da BandLab, da Chew, da Disciple Media, da Grammofy, da Instrumental, da Jaak, da JoinMyPlaylist, da Resonate, da Rotor, da Soundcharts, da Stem, da The Bot Platform, da TheWaveVR e da Vibble entre tantas outras.

Estas empresas criaram e continuam a criar soluções direta ou indiretamente relacionadas com a indústria, mas com um target muito abrangente, que passa pelos consumidores, pelas editoras, pelos autores, pelos artistas, pelos publishers, produtoras e pelas próprias entidades de gestão coletiva de direitos.

Algumas especializam-se em alavancar as grandes plataformas de streaming, outras tentam ser o próximo Spotify, outras operam em áreas como listas de reprodução. Algumas dedicam-se a oferecer/ser ferramentas para ajudar a indústria a lucrar com o público ("targetização" de público, apps de ofertas exclusivas por banda, medidores de reação e definição de estratégia de acordo com indicadores).

As apostas de futuro são muitas, e as necessidades existem para ser criadas, não é verdade? A IA, a realidade virtual e aumentada, a aprendizagem mecânica, o chatbot, o blockchain, o data mining, o e-commerce serão áreas de foco que na indústria da música podem oferecer soluções demasiado inovadoras para poderem ser rejeitadas e receado o seu sucesso por parte dos investidores. A própria indústria da música, o core business e a indústria acessória anseia por melhores e mais inovadoras soluções num mercado em claro crescimento – no streaming (2016 terminou com mais de 100 milhões de assinantes de streaming de música em todo o mundo) nas vendas físicas….e o vinil cresce e cresce, no download – e em clara competição e mudança diária. A aparição dos interfaces de comunicação, como o Echo da Amazon, criam ainda mais um possível mercado por explorar.

Será o mercado da música tão desconhecido do nosso ecossistema de empreendedorismo? Portugal e as startups aqui incubadas têm um potencial enorme, os programas de aceleração que se desenvolvem são de uma óptima qualidade, temos mentores top, e toda uma nova estrutura nacional que apoia/incentiva a inovação. E temos a nossa vontade acima de tudo!

É preciso apenas perceber que uma startup na área da música, nos dias de hoje, deve focar a sua estratégia em criar algo que tenha um enorme potencial para mudar a forma como as pessoas ouvem música, a forma como interagem com os artistas, a forma como a música é criada ou formatada e a forma como as royalties e os direitos de todos os titulares são melhor geridos, mais transparentes, mais lucrativos!