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2017, o ano em que a música salva o mundo?

Em fevereiro já é possível fazer uma lista de melhores discos da temporada. E os vencedores são…

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Meia dúzia de semanas volvidas desde os desejos & promessas do reveillon e 2017 já mostrou ao que vem. Se, no que toca àquilo a que podemos (mas não queremos) chamar «mundo real», as notícias parecem desencorajadoras, a música ameaça mais uma vez salvar o dia.

Talvez precisamente por se afigurarem tão negros os dias da atualidade internacional, e por resultar esmagadora a overdose noticiosa que sofremos sempre que estamos online, praticamente todos os discos que tenho escutado me sabem a mel.

Perdoar-me-ão por mencionar aqui alguns álbuns que ainda se encontram do lado de cá da «barragem»: Prisoner, de Ryan Adams, sai no final desta semana, e só me tem ajudado a recordar como o eterno rapazola da Carolina do Norte é, desde os tempos da sua primeira banda, os Whiskeytown, ou seja, há coisa de 20 anos, um dos meus músicos favoritos. Há coisas que não mudam, e ainda bem.

Mais recente na coleção de «cromos» preciosos, Josh Tillman, que conhecerão pelo petit nom de Father John Misty (ou, como o próprio se referiu a si mesmo recentemente, numa entrevista ao NME, Farmer John Misery), lança no início de abril uma obra que exigirá tempo e atenção para um desfrute completo. Ouvi-lo em casa, com bons phones, é descobrir um álbum conceptual como já vai sendo raro encontrar no rock (designação bastante ampla para aquele que, mais uma vez com humor, se refere a si mesmo como «the oldest folk singer»). Voltaremos a Pure Comedy uma e outra vez nos próximos tempos, mas por enquanto fica o lembrete: este disco não é como os outros.

Já em março, Laura Marling, que não tem absolutamente nada a provar, humilha a eventual concorrência com mais um álbum de génio – Semper Femina, sexto longa-duração para a inglesa de apenas 27 anos, volta a alinhar excelentes canções e grandes interpretações com aparente, e assombrosa, facilidade. «Soothing» e «Wild Fire» são dois bons cartões-de-visita, mas os discos de Miss Marling, claramente a jogar no seu próprio campeonato, devem ser escutados com a atenção meticulosa com que claramente são preparados.

Já disponível está Hey Mr Ferryman, o melhor disco de Mark Eitzel em muitos anos. Com produção de Bernard Butler, o dono de uma das vozes que mais me emocionam acaba também por ser político, de forma mais subtil e pessoal do que Father John Misty. Dentro de um mês, os Spoon regressam com o excelente Hot Thoughts, mostrando que o simples hedonismo também tem lugar neste ano em que as surpresas também têm aparecido amiúde: é lindíssimo o terceiro álbum dos norte-americanos Bing & Ruth, No Home of the Mind, um pedaço de sonho desenhado ao piano, nas lojas no final desta semana, e é intrigante o psicadelismo com nevoeiro da Shadow Band, cujo Wilderness of Love sai no final do mês.

Trazendo conforto ou inquietação, são estes alguns dos discos que têm tornado mais aprazível o ano deste lado. Em qualquer dos casos, mais escapista ou realista, o seu papel é cada vez mais vital.