Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Como fazer a canção da sua vida aos 22 anos

Em outubro de 1993, Neil Hannon gravava “Tonight We Fly”, uma canção maior do que a vida. Quase um quarto de século depois, é ainda ela que encerra os concertos de Divine Comedy, como os da passada semana em Portugal. O prazer é todo nosso

Em 1994, um dos maiores, Neil Hannon, levava ainda mais a sério as suas aspirações barrocas e lançava Promenade, um álbum requintado que conta a história de um dia na vida de um casal enamorado at the seaside. Começa pelo banho matinal, mas é no final, depois da meia-noite, que os corações batem a sério. Se vos estiver a escapar, é deitar-lhe a mão que isto é disco para todo o sempre.

Gravado em outubro de 1993, Promenade despede-se com "Tonight We Fly", canção-milagre, manifesto definitivo por aquele frisson indizível que ocorre entre dois entes doridos, declaração assolapada de fabulosos auspícios, famous last words em lápide quando já pouco restará a fazer (mais tarde do que cedo), coisa tão bonita capaz de justificar a cotação atual do arrepio. Mãos dadas, amigos: "And when we die / Oh, will we be that disappointed or sad / If heaven doesn't exist what will we have missed / This life is the best we've ever had". Agora, asseados que somos, assoemos o nariz.

À altura, o prodigioso irlandês contava 22 anos e, aparentemente, todo um simulacro de estaleca dentro dele. São assim as melhores histórias: as que são o que gostássemos que fossem. É "Tonight We Fly" uma canção sobre o amor incondicional pela vida? Sim, e só porque o amor incondicional pela vida - não é de hoje - manifesta-se um caso complicado.

Esperto e sensato (mas também um coração mole, e ainda bem), Hannon passou, muito frequentemente, a acabar os seus concertos de Divine Comedy com esta canção capaz de nos levar de volta a casa a acreditar na magnífica capacidade humana de dardejar airosamente o próximo e a pensar, grosso modo, em procriação - se e quando possível. Em alternativa, no ato prazenteiro de nos entretermos uns aos outros. Ó mundo cruel, é altura de pensar nisso? Sim. Aliás, é bom só pensar nisso.

Nota: o concerto de sábado passado, no Tivoli, deu esta playlist que se segue.