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Do Irão a Leiria, a música portuguesa tem bons vizinhos

No passado sábado, Sean Riley & the Slowriders deram um belo concerto no CCB, em Lisboa. Mazgani, que com eles partilha algumas coordenadas “espirituais”, ajudou à festa

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Shahryar Mazgani nasceu no Irão, mas desde os cinco anos que vive em Portugal, para onde se mudou com os pais em 1979, na sequência da revolução iraniana. Um pouco mais novo, Afonso Rodrigues, cantor e compositor da banda Sean Riley and the Slowriders, nasceu em Leiria, estudou em Coimbra e desaguou em Lisboa, onde nos últimos anos tem conduzido com discreta elegância a carreira de um grupo enamorado pelas canções, pelo rock e por uma ideia romantizada da América do Norte. É esse território, tão geográfico como espiritual, que norteia também muito aquilo do que Mazgani – fiel discípulo de Leonard Cohen ou Bob Dylan – procura fazer, nas suas canções cuidadas.

No ano passado, a propósito do quarto álbum de Sean Riley and the Slowriders, Afonso Rodrigues confessava-nos que, apesar de sempre ter sentido atração pelo cenário de tanta da arte que o inspira, nunca tinha ido aos Estados Unidos. Mas que planeava uma road trip para setembro – altura em que efetivamente esteve na Califórnia com o amigo Legendary Tigerman. Na entrevista à BLITZ deste mês, Paulo Furtado revela que, depois de gravar o seu disco, gravou algumas canções acústicas de Afonso “on the road”. Sem saber dizer se as mesmas poderão conhecer a luz do dia, garante apenas que a experiência foi “muito bonita”.

Não nos custa a crer: no passado sábado, o pequeno auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, esgotou para celebrar um concerto onde o último disco esteve, naturalmente, em destaque (e que bem soa o negrume de “Intro (Flying Back)” ou o frenesim de “Greetings” ao vivo!), mas que serviu também para revisitar outros momentos igualmente inspirados de uma jornada que já se iniciou há dez anos: foi com prazer que reencontrei as canções daquele que considero um dos seus melhores discos, Only Time Will Tell, de 2009, belissimamente representado por “Houses and Wives”, “Got To Go” ou “Buffalo Turnpike”, e que voltei ao intimismo saboroso do primeiro disco, lançado em 2007, “Farewell”

Nessa estreia que já se vai tornando longínqua, Sean Riley and the Slowriders soava-me mais a banda de cantor-compositor do que a grupo capaz de deixar um agradável cheiro a pólvora no palco. No sábado à noite, as duas facetas – a do intimismo acústico de “Harry Rivers” e a da eletricidade de “Pearly Gates” – casaram na perfeição, oferecendo ainda a banda uma surpresa aos fãs: a da visita de Mazgani para cantar uma das suas canções, “Distant Gardens”, e “Everything Changes”, de Sean Riley.

Quem já viu o autor de Lifeboat ao vivo sabe que dificilmente a preguiça mora nas suas atuações (lembro-me de o ver escalar os assentos desta mesma sala, há alguns anos, durante um dos seus concertos) mas, enquanto convidado de Sean Riley, o cantor revelou uma química distinta: sobretudo durante “Everything Changes”, do terceiro disco do grupo, Mazgani cedeu à emoção e à energia do momento. Saltou, esperneou, juntou-se a Afonso para ao seu microfone praticamente gritar: “I wanna stay with you, baby, I want to te true!”. Perante uma entrega destas, não há como não acreditar.

Brincando, ou talvez não, Afonso prometeu para daqui "a seis meses" um concerto de Sean Riley com Mazgani, o que, pela amostra de sábado, só poderia ser uma receita de exceção.

Numa noite que passou ainda pela versão de “Hollywood Forever Cemetery Sings”, de Father John Misty, num dos encores, ficou mais uma vez provada a ideia de que, na música portuguesa, a união faz a força. Quer seja na junção de forças de Sean Riley e Mazgani, em palco, quer nas gravações de Afonso com Tigerman, algures na Califórnia, ou na gravação do disco novo de Mazgani, nas quais vimos que Peixe estará a participar, somos cada vez menos uma ilha – e ainda bem.