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Crónica de uma espera de 37 anos

O álbum “Flex” de Lene Lovich foi o primeiro disco que comprei com o meu dinheiro. Em 1980 não pude vê-la quando passou por Cascais. Amanhã vou finalmente poder ver ao vivo aquela voz que fez com que começasse a comprar discos com regularidade.

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Estávamos em 1980 e o mundo era uma coisa diferente. A música nova chegava pela rádio, entre conversas de amigos na escola, em discos que se emprestavam, em tardes em casa uns dos outros nas quais focávamos mais atenções em volta dos singles e dos LPs do que nos trabalhos de casa (que lá se faziam). É por essa altura que, em casa de um amigo, um single começara a ser tocado com insistência. Na capa via-se uma figura feminina, de olhar sinistro e vestido branco, cheio de rendas, um pouco como uma noiva vinda de uma dimensão assombrada. Logo atrás um homem, também de branco, segurava um fio que os unia... O fundo era vermelho (sim, a música tem sempre cores e imagens a si associadas)... E, no gira-discos, escutava-se um tema ritmado, intenso... Que soava a coisa tão bizarra como sedutora (pelo menos para uns ouvidos com 12 anos de idade). A canção chamava-se “Angels” e era afinal o segundo single do (então) novo álbum de uma cantora que cativava atenções, já que surgia filiada entre a linha da frente daqueles que então inventavam novos caminhos para a pop depois de assimilados os ecos da revolução punk.

Por esses dias, de regresso a casa (vindo das aulas) e com uns 270 escudos reunidos entre semanadas e algumas dietas na hora do almoço (havia opções mais baratas do que o prato do dia e sempre se juntavam mais uns tostões) entrei numa discoteca que nesses tempos havia na lisboeta Av. Álvares Cabral, bem perto do Rato. Lá estava o álbum... Flex... A mesma mulher, um outro vestido branco, mas muito semelhante. O mesmo olhar perturbante... E aquela canção, “Angels”, lá surgia na faixa três do lado A. Comprei o álbum. Já tinha comprado singles com o meu dinheiro (e o primeiro, meses antes, fora “Video Killed The Radio Star”, dos Buggles – coisa bem geracional e profética no sentido das coisas que a canção sugere). Já tinha vários discos oferecidos entre aniversários e quadras natalícias, sem esquecer o pós-Eurovisão (nunca deixava de pedir o single da canção favorita). Mas aquele era o primeiro LP que comprava. Ainda o tenho. Ouve-se (mesmo com um risquinho numa faixa). São memórias que nos marcam. Nesse ano a cantora veio a Cascais... Mas era pequeno de mais para ir por minha conta. Fiquei em casa a ouvir o disco. Fica para uma outra ocasião, pensei... Não imaginava que teriam de passar 37 anos até que se cumprisse o que ali não acontecera...

O single de "Angels", de Lene Lovich

O single de "Angels", de Lene Lovich

New wave, assim chamávamos à música que então fazia a melhor banda sonora dos nossos dias por aquela altura. E havia até uma coletânea com dois LP de vinil colorido a circular então entre os colegas do liceu, cada qual ali encontrando as vozes e canções com as quais mais se identificava. A cantora de que falava? Chama-se Lene Lovich. Foi uma figura muito presente no panorama pop/rock de finais de 1978 a inícios de 83, depois tendo conhecido uma agenda mais feita de silêncios e afastamentos do que de discos. Nos últimos anos montou uma nova banda e começou a ter uma vida de estrada mais regular. Em 2015 passou por Leiria e quem lá foi conta que valeu a pena o reencontro. Uma vez mais não pude ir... Mas amanhã estará perto de Lisboa. No Cineteatro Municipal D. João V, na Damaia. É desta!

Quando passou por Leiria falei com Lene Lovich (ao telefone), daí nascendo uma entrevista que seria depois publicada nas páginas da BLITZ. Foi uma ocasião para conhecer mais a fundo a voz e a mulher que tantas vezes escutara. E na ocasião falou-me sobretudo de como em meados dos anos 70 era uma jovem que se sentia algo deslocada do mundo ao seu redor e de como tanto a revolução punk como a sua ligação ao mundo do teatro lhe abriram portas para ser quem acabou por se mostrar.

“Sempre senti que era diferente, mas tinha uma ideia muito errada do que era ser artista. Achava que era algo muito livre... Fui para a escola de artes e foi uma desilusão. Era um mundo pequeno... Na altura estava a estudar escultura e ninguém parecia gostar. O que foi bom porque me deixavam sozinha. Descobri então que era bem mais divertido fazer música”, contou-me então.

Ao conhecer gente ligada ao teatro experimental e às artes do palco em geral sentiu que podia fazer parte dessa família. E na etapa final dos seus dias na escola de artes chegou um dia em que pensou que, se estiver a fazer algo que tem mais a ver com as ideias dos outros do que com as suas, então isso não é arte. Esse momento, como então ela mesma contou, foi aquele em que entendeu que tinha de encontrar um caminho que se relacionasse com a sua personalidade e que lhe permitisse partilhar sensações. E aí, acrescentou, a revolução punk ajudou, porque, como ela contou, “havia tanta confusão” e as editoras “não faziam ideia do que estava a acontecer”. O punk fez assim com que tudo “fosse mais facilmente aceite”. E ela mesma é um exemplo dessa rara liberdade então encontrada.

Marca mais evidente da música de Lene Lovich, além do trabalho cénico elaborado com que se apresentavam as canções – e aqui falo sobretudo dos álbuns da sua fase “clássica”, ou seja, Stateless (1978), Flex (1980) e No Man’s Land (1982) – a voz era a peça que depois fixava a sua mais clara manifestação de identidade. Pedi-lhe me falasse de como a descobrira e levara pelos caminhos que a conduziram ao que conhecemos dos seus discos. E disse: “É uma voz ligada a emoções e imagens que tenho na mente. Os sons são como se fossem cores. Não tive aulas nem treino, nem sabia o que estava a fazer... Tinha tentado tocar saxofone... Mas não sou instrumentista e precisava de encontrar uma maneira de ter uma... voz. A cada dia, a caminho da escola, tentava cantar mais agudo. E de regresso a casa, ia ensaiando os graves. Ia alargando o espectro vocal.”

Entre o vaivém da escola no qual ela afinava o canto. E o vaivém da escola na qual comprei o seu disco nasceram afinidades... E amanhã, 37 anos depois do primeiro embate com a surpresa daquela voz, finalmente vou cumprir o que falhei em 1980. Desta vez passei a semana a ouvir os discos. E amanhã lá estarei na sala. 37 anos de espera? Quem espera sempre alcança, não diz o ditado?