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Quem tem medo de Janelle Monáe?

Mulher, negra, feminista, ativista, defensora dos direitos LGBT, a cantora que atuou na Casa Branca durante a presidência de Barack Obama é também agora atriz. E é norte-americana

Quando a entrevistei em dezembro de 2010, Janelle Monáe não me impressionou. Fiquei até um pouco desapontado, considerando que tinha acabado de eleger The ArchAndroid, longa-duração que marcou a estreia da artista norte-americana numa grande editora, o meu álbum do ano (agarraria o último lugar do pódio no top anual da equipa da BLITZ). A artista norte-americana, então com 25 anos ("fiz 47. É essa a idade que sinto que tenho"), durante os 13 minutos que me concedeu, mostrou-se demasiado contida, com um discurso pouco espontâneo, respondendo às minhas questões, sempre de forma pouco direta, maquinal, com frases que pareciam ter sido repetidas vezes se conta. Horas depois, vê-la-ia, gigante e vibrante, no palco do Tivoli.

Memorizei dois excertos daquela entrevista. A explicação para a sua indumentária de eleição: "estou constantemente a viajar no tempo. Vou para o passado e para o futuro. É uma coisa transcendental e é por isso que uso sempre smoking, porque encaixa no futuro, no passado e neste momento em que vivemos". E, mais importante do que isso: "tive de lutar com bullies quando era mais nova. Sempre protegi pessoas mais novas e aquelas que sentiam que não conseguiam defender-se. É isso que eu represento. Não permito que abusem de mim" Foi desta forma que explicou a letra de "Cold War", uma das canções mais fortes de The ArchAndroid.

Passaram-se mais de seis anos, Monáe editou um outro álbum (The Electric Lady, 2013), atuou em solo nacional por diversas vezes e, em 2016, deu o salto para o cinema. Elementos Secretos e Moonlight, que estreiam esta semana nas salas de cinema nacionais, têm recolhido aplausos da crítica e estão ambos nomeados para os Óscares na categoria de Melhor Filme. O elenco de Elementos Secretos, que também inclui Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons e Mahershala Ali, foi distinguido coletivamente nos prémios Screen Actors Guild... E a história verídica de três mulheres negras que conseguiram afirmar-se na NASA nos anos 60 (tal como a de Moonlight, que segue a viagem de um jovem negro, alvo de bullying, a debater-se com questões de identidade sexual) parece ser particularmente pertinente no momento em que os Estados Unidos se debatem com a chegada de um presidente pouco consensual.

Janelle conseguiu, com apenas dois filmes, provar que se sai tão bem na representação como na música, mas, o que para mim é ainda mais importante, tem vindo a romper, fora desses dois palcos, com a imagem robótica que mantinha dela, afirmando-se como uma mulher com os pés bem assentes no seu tempo, que quer fazer ouvir bem alto a sua voz. Hoje, nada como a artista contida que conheci, é, precisamente, uma das vozes que mais se ouve na América anti-Trump. Falou em defesa da comunidade LGBT, discursou na Marcha das Mulheres em Washington, aproveita entrevistas e as plataformas que lhe dão (cerimónias de entregas de prémios, por exemplo) para expressar a sua indignação e está mais ativa do que nunca no Twitter, meio, curiosamente, privilegiado pelo novo presidente dos Estados Unidos para comunicar com o mundo as suas opiniões e medidas racistas, xenófobas, homofóbicas e misóginas.

"Só quero dizer à comunidade LGBTQ, meus caros irmãos e irmãs, aos imigrantes, meus caros irmãos e irmãs, e às mulheres: continuem a abraçar as coisas que fazem de vocês pessoas únicas, mesmo que os outros fiquem desconfortáveis com isso", disse no discurso em Washington, sublinhando algo que tinha afirmado, há três anos, numa entrevista ao site PrideSource: "sou uma unificadora". Género, origem, cor, identidade sexual, religião: o que nos separa é aquilo que nos torna únicos e também aquilo que, quando se usa um "smoking", mesmo que já não se use, deve unir-nos enquanto humanos. E 2017 já é, para mim, o ano de Janelle Monáe.