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1967 vai ser um ano do caraças

Jimi Hendrix entra em ação! Os Beatles lançam “Sgt. Peppers” e os Stones contra-atacam com “Their Satanic Majesties Request”. The Doors, Pink Floyd e Velvet Underground não querem ficar atrás

Elvis Presley está velho, fez 32 anos há dias. O rock and roll, hoje, é outro: mais cósmico, mais colorido, mais pedrado. Ninguém conseguirá travá-lo.

Em 1967 a marcha é triunfante. Ao quarto dia do ano, uns certos Doors, de Los Angeles, lançam o álbum homónimo com duas malhas bem jeitosas: "Light My Fire" e "Break On Through (To The Other Side)". Em fevereiro, os até há pouco tempo aprumadinhos Byrds, conterrâneos dos Doors, perguntam-nos "So You Want To Be a Rock and Roll Star?" e dão seguimento às vistas largas de Fifth Dimension, lançado no verão passado. No mesmo mês, os também californianos Jefferson Airplane (de São Francisco), que têm uma vocalista nova (Grace Slick), dão um salto de gigante em Surrealistic Pillow - ouçam "White Rabbit" e confirmem se isto não está, agora, no ponto certo.

Em março, um galês, dois americanos e uma americana, mais uma hipnotizante cantora alemã, vão lançar um disco fora deste mundo. Chamam-se Velvet Underground, são apadrinhados por Andy Warhol, e não se sabe se estaremos preparados para eles.

A 1 de maio, os quatro Beatles confessarão já ter "provado" ácido; um dia depois, do outro lado do Atlântico, a Capitol Records desligará o botão a Brian Wilson, incapaz de concretizar o projeto Smile. Pet Sounds, lançado em 1966 pelos Beach Boys, vai ter de servir durante mais algum tempo.

12 de maio, boom! Are You Experienced, a estreia em LP do mago Jimi Hendrix, vai rebentar com tudo. Onde é que já ouvimos isto? Em lado nenhum, claro. Que as divindades guardem aqueles dedos por muitos e bons anos (e que o levem a Monterey em junho).

1 de junho: o desconhecido David Bowie (bonito penteado) lança um álbum com o seu nome mas ninguém quererá saber dele. No mesmo dia, outros valores se levantam: Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, o novo dos Beatles, é ainda mais "fora" do que Revolver, do ano passado. É isto o rock psicadélico? É mais do que isso: é a pop a ficar barroca, requintada, encantatória. E agora, como superá-lo?

Por este andar, os Doors ainda hão de aparecer na televisão a cantar a infalível "Light My Fire" (tem um verso nestes moldes: "Girl we couldn't get much higher"). Vai dar merda. Suspeita-se que, na mesma altura, os Who irão querer destruir instrumentos em palco. Falta um jornal/revista para reportar esta avalanche: que tal chamar-lhe Rolling Stone? Fica a sugestão.

Bob Dylan está a lançar "greatest hits" (já?) e Donovan já não quer ser Dylan e encontra-se enamorado com a cor amarela. Que andará a tomar? "Happy Together", dos Turtles, é orelhuda mas se quisermos (outros) californianos mais essenciais vamos ter de ouvir Forever Changes, dos Love, lá para novembro.

No calor de agosto, os londrinos Pink Floyd (que finalmente acertaram com um nome de jeito) avançam para o primeiro LP, The Piper at the Gates of Dawn - falta-lhe canções como "See Emily Play" e "Arnold Layne", mas aguenta-se bem à bronca. Um dos miúdos dos Walker Brothers, Scott, vai editar a solo. Diz que anda a ouvir Jacques Brel e Tim Hardin. A ver vamos. Mais velho, mas também a começar, um canadiano que responde pelo nome de Leonard Cohen editará o seu primeiro álbum. É folk - será que estamos para aí virados?

Lá para o fim do ano, os Rolling Stones - que já editaram no início Between The Buttons - também vão psicadelizar (a moda pegou). Prometem-se canções como "She's a Rainbow" e "2000 Light Years From Home".

O futuro será, evidentemente, brilhante.