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Danny North

U2 querem ser uma voz de alerta no mundo de Trump e do Brexit

O adiamento do lançamento do álbum Songs Of Experience e uma digressão ao som das canções de The Joshua Tree revelam uma agenda da banda irlandesa que, mais do que apenas musical, é também política

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Enquanto o mundo se prepara para quatro anos que nem o “e agora para algo completamente diferente” dos Monty Python poderá imaginar, e a oposição política norte-americana não encontra novas figuras protagonistas, uma das mais sonoras entre as frentes de alerta contra a presidência de Donald Trump anuncia-se pela música. E tem os U2 na linha da frente dos acontecimentos.

A banda, que preparava para este ano a edição de Songs of Experience, o disco que faria o par com Songs Of Innocence (de 2014), anunciou já que deverá adiar o lançamento do novo álbum.

O disco estava na verdade inicialmente projetado para ter conhecido lançamento em finais de 2016. Os trabalhos foram contudo concluídos precisamente na mesma altura em que a eleição presidencial americana decidiu que o sucessor de Barack Obama na Sala Oval seria, contra o que as sondagens até aí tinham sugerido, não Hillary Clinton, mas sim Donald Trump... E The Edge, o guitarrista dos U2, foi quem, publicamente, observou que, como consequência dessa escolha, o mundo mudou. E, por isso, os U2 optaram por travar o processo de edição do disco. Porque, como ele mesmo explicou, preferem ver como é que o disco se vai encaixar nesta nova realidade.

O ceticismo com que os elementos dos U2 encaram a presidência de Trump é há muito conhecido. Bono, que tem um relacionamento (que não esconde) com os Clinton desde os anos 90, fizera de alguns momentos dos concertos de 2016 um espaço de alerta contra o mapa político que, afinal, acabou por se concretizar.

Mas esse não é o único cenário de 2017 que fez os U2 pensar o que poderia ser a sua contribuição para tempos conturbados. Tal como The Edge defendeu na entrevista à Rolling Stone, o mundo com Donald Trump e o Brexit, em 2017, lembra-lhe muito aquele que, em 1987, com Reagan e Thatcher, assistiu ao lançamento do álbum The Joshua Tree. Um disco que, apesar dos sucessos anteriores, foi aquele que deu aos U2 uma dimensão verdadeiramente global e, sobretudo, gigantesca exposição nos EUA. A mítica capa na Time que confirmou esse estatuto data de então...

Esta comparação apresenta-se assim como uma das explicações para o facto de, no ano em que se assinalam os 30 anos do lançamento desse disco, os U2 o devolverem aos palcos para interpretar na íntegra numa digressão que vai andar pela Europa e América do Norte entre maio e o início de agosto.

O disco traduz em vários momentos ecos de uma reflexão sobre a forma como a ideia de uma América idílica e a realidade americana de então pareciam estar em polos opostos por aqueles dias. E se “Where the Streets Have No Name” (um grande hino pela igualdade na diversidade) encontramos sinais desses sonhos desejados, já em canções como “Bullet The Blue Sky” ou “Mothers of The Disappeared” passam expressões de uma relação crítica com a política externa da administração de Reagan em territórios da América Latina, em “In God’s Country” traduz-se o contraste entre os símbolos (como a Estátua da Liberdade) e realidades num mundo em que os rios ameaçam secar e novos sonhos são precisos e, novamente num plano concreto, “Red Hill Mining Town” reflete sobre a luta que estava então a ser travada pelos mineiros ingleses contra a ameaça de encerramento dos seus postos de trabalho. Convenhamos que, quer pelos temas debatidos, quer pela sua dimensão musical, The Joshua Tree é mesmo um grande disco que vale a pena revisitar.

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