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Eu, azeiteiro, me confesso

Sempre que me servem a sopa na cantina, junto-lhe por cima um fiozinho de azeite. Porquê? Simples: fica melhor. Mas o que é que isto tem a ver com música?

No outro dia, a propósito de já não sei o quê, disseram-me: “tu consegues descobrir as séries mais obscuras e depois ficas agarrado a isto”. Isto é a reposição da novela brasileira Roque Santeiro no canal Globo. Obra-prima, já que perguntam, e ainda não lhe vi um único galheteiro.

Eu sei que estávamos em tempo de Natal, e de boa vontade, mas não esperava tamanho elogio. Sou do tempo (ainda vigente, creio) em que a separação entre alta e baixa cultura é segregação própria dos pobres de espírito. Os meus mentores tanto ouviam Dvořák, Coltrane e Pet Shop Boys – não eram burros. E eu, que tanto gosto de ovo cozinhado devagarinho sob cama de batata e óleo de trufa como de salada de orelha, também acho que não sou.

Noto, porém, algum desconforto em alguns dos meus convivas quando afirmo, sem pensar duas vezes, que os Justice (substitua pelo que mais lhe convier) fazem alguma da música mais vibrante dos nossos tempos, apesar de nada – ou quase nada – quererem com o presente. É quase como se me dissessem “tu és boa pessoa, até ouves música de jeito, mas…”. Partilha-se uma indiezice que só nós ouvimos e os “likes” jorram; saca-se uma ‘Randy’ do último álbum dos franceses e, obrigado mas lamento, tenho onde estar às 2. Serei o único a ver neles prog ensaboado, suites à Goblin em sede de Dario Argento, cavalgadas empolgantes à custa de zero solos de guitarra (ok, vá lá, um ou dois) a cantar desde 1919? Talvez não. Mas não me parece que tão cedo venha a estar acompanhado neste ringue de patinagem untado com azeite.

Como é que isto convive na mesma playlist com Nick Drake e John Fahey, com Guided By Voices e Pavement, ou com Belle & Sebastian e Real Estate? Não convive, e eu prezo bem a minha saúde gástrica. Azeite e água não se misturam, apesar de – pelo que me toca – não conseguir passar sem um ou outro. Mas até um arroz de pato mais seco se salva do desastre com dois ou três salpicos de essência de azeitona – ide por mim.

Se perdemos a vergonha na moda (nada contra, mas só isso explicará esta vaga de camisas e casacos com padrões de colchas), por que raio ainda olhamos de lado quando a música começa a engordurar-nos os dedos? Ensaio uma resposta simples: porque com a música – talvez mais do que o cinema ou a literatura – mandamo-nos, orgulhosamente, para um dos lados da barricada, com gatilho fácil, desdenhando o contrário. Sem perceber que aqui não há guerra a cumprir, apenas oportunidades de prazer que não deveríamos perder. Façamos justiça a nós próprios e deixemo-nos de tretas.