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Três discos para ouvir em 2017

Dois chegam de fora, um é português. Um deles celebra 50 anos de uma vida. O outro assinala um regresso após longo silêncio. O terceiro apresenta uma parceria com um dos maiores músicos do nosso tempo. São pelo menos três motivos para começar a lançar pelos caminhos de 2017

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Feitas as contas a 2016, destacados os discos e os concertos, lembrados aqueles que nos deixaram, chega a hora de olhar em frente. É claro que nada mudou lá porque o calendário deu um clique e saltou em frente à meia noite de dia 31. Fisicamente, a coisa implica uma nova órbita da Terra em torno do Sol. Mas o resto é calendário... E como é no calendário que aprendemos a arrumar as coisas que acontecem, aqui ficam três discos que a agenda vai arrumar no calendário do novo ano e pelos quais vale mesmo a pena ficar já à espera.

The Magnetic Fields

Quem acompanha com alguma atenção os acontecimentos nos terrenos da canção popular recorda certamente um disco que, editado antes da viragem do século, deu finalmente visibilidade a um dos grandes autores de canções do nosso tempo. Ele chama-se Stephin Merritt, gosta de dividir o seu trabalho por vários projetos distintos (como os The 6ths, Gothic Archies ou Futrure Bible Heroes), mas é através dos The Magnetic Fields que define o tronco central da sua obra. Já tinha editado vários discos por esta banda quando, em 1999, o triplo-álbum 69 Love Songs nos mostrava, em nada mais nada menos do que 69 canções, uma mão cheia de visões possíveis sobre o amor. O disco sublinhou o seu gosto por projetos concetuais, mas entre os quatro álbuns que depois editou como Magnetic Fields nunca repetiu aquele momento. Em 2015, quando fez 50 anos, Stephin Merritt começou a gravar um novo ciclo de canções. E fez uma para cada um dos 50 anos que tinha vivido até ali. Surgiu assim 50 Year Memoir, uma crónica para meio século de vida, que em março surgirá neste álbum a ser editado em formato quíntuplo, tanto em vinil como em CD, a cada disco correspondendo uma década da sua vida...

The Jesus & Mary Chain

Há discos que marcam um tempo e ajudam a fazer a revolução. E Psychocandy, o álbum que nos apresentou os The Jesus & Mary Chain em 1985, é um desses raros conjuntos de canções que guardam em si a chave para mudar tudo o que possa surgir depois. Se a eletricidade há muito servia a música e por vezes até dava que falar (e basta aí recordar quanto brado deu a “eletrificação” das canções de Bob Dylan), o certo é que nunca antes tinha encontrado um espaço de reflexão com estas características, a ponto de estabelecer pontes entre o ruído e a trepidação da reverberação e a construção de canções segundo os trâmites mais clássicos da forma pop/rock. Com o tempo o caráter mais abrasivo da música do álbum de 1985 cedeu a outras formas de moldar aquela mesma tensão a outras formas, tanto que logo em Darklands (dois anos depois) sentimos as diferenças. O grupo continuou a fazer discos, que foram perdendo o tom acutilante do primeiro, embora nos tenham dado muitas e belas outras canções. Depois saíram de cena. E, como agora quase é norma, regressaram. Primeiro para os palcos. Mas em 2017 haverá álbum novo. Tem por título Damage and Joy, foi produzido por Youth e chega em finais de março... Depois de tão bom regresso recente dos My Bloody Valentine, as expectativas estão colocadas bem alto por aqui...

The Gift

Começámos a ouvir o que nos espera em 2017 em finais de setembro deste ano. “Love Without Violins” era um primeiro aperitivo. Uma canção mais angulosa que as que o grupo mostrara nos anteriores Explode e Primavera. Mais eletrónica. Mais intrigante... E com o valor acrescentado de ter a voz de Brian Eno a partilhar o protagonismo com Sónia Tavares. O músico, um histórico dos primeiros tempos dos Roxy Music, com obra a solo desde 1973 (tanto em regime pop como no campo instrumental pelo qual definiu sobretudo visões ambientais), ganhou um estatuto como produtor sobretudo ao lado de discos de nomes de primeiro plano como David Bowie, Talking Heads, U2, James ou Coldplay, e assinou em 1990, ao lado de John Cale, um dos melhores álbuns pop de sempre (chama-se Wrong Way Up). Com os The Gift encontrou mais uma das suas raras parcerias. Com eles viveu a escrita, a gravação, a produção de canções, em sessões que começaram na Galiza e depois continuaram em Alcobaça. O álbum, recentemente concluído, teve nesse single de setembro um magnífico primeiro instante de prova de sabores. Um novo, “Clinic Hope”, chega já no início de janeiro... O álbum ainda não tem data de lançamento, mas surgirá garantidamente em 2017. Pela sugestão da amostra, o disco promete devolver a música do grupo português ao terreno de desafio pelo qual souberam fazer a diferença em finais dos anos 90.