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Bruce Springsteen

2017: O Boss perdido na internet

Rui Miguel Abreu dá as boas vindas ao novo ano a escutar um estranho podcast com Bruce Springsteen e a refletir sobre os igualmente estranhos contornos do futuro que já nos envolve...

O podcast de Marc Maron, WTF (disponível em wtfpod.com), tem na sua edição mais recente um convidado muito especial – Bruce Springsteen. Não que convidados passados – como Joanna Newsom, Kamasi Washington, David Byrne ou, por exemplo, Steve Albini – não tenham igualmente sido especiais, mas o Boss do Mundo Livre é provavelmente um bocadinho mais especial.

O podcast começa com um apelo a doações para um programa humanitário das Nações Unidas. Até aí tudo bem. Depois passa a publicidade de uma marca de água que promete muito sabor com zero açúcar. Tudo bem, também, há que pagar as contas. E depois estabelece-se o tom, fazendo jus à sigla que dá nome ao programa, com várias “f-words”. Uma vez mais, nada contra: é um desperdício ignorar palavras tão fortes como essa e, na verdade, parte do conceito do programa de Mark Maron passa por falar ao microfone como se fala na vida real. Mas a coisa fica um pouco caricatural com o tom “talk radio” que o apresentador imprime ao seu discurso. Nada de mais também, não é disso que importa falar. O importante é que Maron tem uma audiência (o seu podcast é dos que mais dinheiro rendem: num artigo de 2014 no site celebritynetworth.com apontava-se cerca de 15 mil dólares por episódio: os números cresceram entretanto e é natural que o mesmo tenha acontecido aos dividendos) e só isso pode justificar que Bruce tenha aceitado ir ao programa onde além de água se anunciam também produtos de cozinha num verdadeiro carrossel de colocações publicitárias oferecidas pela mesma voz que também conduz a entrevista... hum, aqui as coisas começam a ficar um pouco turvas.

Marc fala muito sobre si mesmo (é ele a verdadeira estrela, não Bruce...), conta-nos as peripécias do parto da sua filha, recorda as suas próprias raízes em Nova Jérsia e faz questão de nos dizer que não é o maior fã do mundo de Bruce Springsteen. E depois descreve o encontro com o homem que recentemente editou a biografia Born To Run (que o apresentador também faz questão de referir não ter lido ainda por completo...). Aqui entre nós, Maron – que vi descrito como “um incrível entrevistador” – não é assim tão bom e os quase 20 minutos que demora até arrancar com a conversa propriamente dita são algo penosos. Essa conversa, aliás, não garante material que pudesse, por exemplo, figurar numa peça de fundo da Rolling Stone. Mas Springsteen a falar com o autor de um popular podcast é, sem dúvida, um sinal dos tempos.

Numa era em que os artistas basicamente dispensaram as grandes editoras, porque já não se vendem assim tantos discos, e assumem eles mesmos todas as despesas de marketing, é natural que se queira atingir a maior audiência possível com o menor esforço. Muitos fizeram das redes sociais verdadeiras rampas de lançamento de estímulos que são pensados para manterem o seu mercado em alerta, sempre em busca de mais um clique, de mais um stream, de mais um play. Porque ao fim do dia é isso que importa. Mas quando até Bruce se vê obrigado a adaptar o seu jogo de cintura às novas regras isso é um claro sinal de que o mundo está já ao contrário. Não se leia aqui qualquer julgamento de valor: Passo boa parte do meu tempo a navegar essas redes e a tentar descobrir nelas o “peixe” que me importa levar para a “mesa” e devo dizer que esse é um oceano de abundância onde se descobrem muitas “iguarias” (e tenho perfeita noção de que esta metáfora está esticada até ao limite...). Ainda assim, o velho do Restelo que às vezes também habita em mim não consegue deixar de lamentar que até Bruce Springsteen, o tipo que faz concertos de quatro horas, que é voz da América que trabalha, que cancela concertos em cidades em que se promulgam leis contrárias à liberdade de escolha, também precise em certos momentos de nivelar um bocadinho mais por baixo... Como dizia um certo humorista português: “não havia necessidade”. Ou talvez haja, e essa é que é a verdadeira questão...

Bom ano para todos!

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