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Ainda há estrelas como George Michael?

Com a net, é possível habitar num mundo paralelo em que os grandes campeões de airplay são os nossos favoritos. Onde ficam, neste cenário, as estrelas globais?

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

2016 já lá vai, mas as perguntas que nos lançou continuam, em muitos dos casos, sem resposta. Perante o desaparecimento de estrelas universalmente (re)conhecidas como David Bowie, Prince ou, mesmo no final do ano, George Michael, houve quem justamente se interrogasse: ainda há estrelas como estas?

Para quem, como eu, vê mais de perto os 40 anos do que os 20, a resposta mais intuitiva é dizer não. Sei, no entanto, que não será bem assim. Afinal, se falar com fãs de música bem mais jovens do que eu, saberei que o impacto de ver Bruno Mars a cantar «Uptown Funk» quando tinham 10 ou 12 anos não deverá ser assim tão diferente do que aquele que a minha geração sentiu quando Prince lançou «Kiss». E quem fala em Bruno Mars pode falar em Sia, Rihanna, Justin Bieber, The Weeknd ou todos os monarcas da pop contemporânea. Os êxitos continuam a ser produzidos e as massas continuam a ser encantadas – nós é que já não temos 10 anos para acharmos fascinante estar em casa daqueles tios com uma televisão das grandes, a ver pela enésima vez o vídeo de «Last Christmas».

Mas estou em crer que a diferença não está só em nós, mas também, e como quase sempre acontece, no meio. Com pouca possibilidade de comprar discos (muitos dos que tinha eram-me gravados em cassete por amigos que tinham os vinis ou, mais tarde, os CD), o meu limitado mundo de melómana adolescente passava pela rádio e pela televisão. Exceção feita a raríssimos programas mais direcionados para nichos, o que consumia era então uma programação mainstream, conhecendo assim de trás para a frente todos os grandes hits do momento. Dentre essa ementa generalista, fui peneirando aquilo que melhor servia o meu paladar, construindo aquilo que é, até hoje, o meu «gosto». Mas a verdade é que a exposição obrigatória aos media mainstream fez com que, nunca tendo sido grande seguidora da carreira de George Michael, por exemplo, ainda hoje conheça todos os seus maiores êxitos até ao último refrão – letra incluída.

Hoje, é escusado explicar em detalhe, quase tudo mudou. Com uma ligação à internet, podemos praticamente habitar um mundo paralelo e passar ao lado daquilo que marca os topes. Olho para o top de streaming em Portugal e vejo que é dominado por nomes como James Arthur, Callum Scott, Rae Sremmurd. Abro o meu Spotify e reparo que, atenciosamente, já me prepararam uma nova coletânea com base nos artistas que mais ouço: neste outro planeta, os campeões de airplay são William Tyler, Hope Sandoval ou Led Zeppelin.

Ainda que as possibilidades que nos oferecem estas tecnologias sejam imensamente compensadoras, é verdade que, mercê desta fragmentação de públicos, deixámos de conhecer as caras de boa parte dos reis do airplay atual. Ou, como me disse Miguel Araújo numa entrevista antes dos incontáveis coliseus com António Zambujo: «Nos anos 80 e 90, era impossível qualquer pessoa do planeta não saber quem eram as grandes estrelas da música: Madonna, Michael Jackson… Se ele passasse na rua da minha avó, ela diria: olha, passou aí o Michael Jackson. Agora, se passasse a Rihanna, a minha mãe não ia dizer nada, porque nunca ouviu falar dela. A música perdeu o seu lugar no mainstream».

Haverá exceções, claro está, como as dos super astros Taylor Swift ou Justin Bieber, ainda assim reconhecidos de forma mais transversal. Mas geralmente falando, será este o estado da nação pop em 2017. No dia a seguir à morte de George Michael, a rádio mais ouvida do país passou um dos seus maiores êxitos, seguido por uma canção que estava certa de já ter ouvido, mas cuja autoria me estava a escapar. Googlando, o embaraço: não só conhecia a canção, como já tinha visto o seu intérprete ao vivo, escrevendo sobre o concerto. Tenho uma vaga ideia do seu rosto. Pode ser só da idade, mas desconfio que não. Bom ano novo!