Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Last Christmas

“Last Christmas”: o ‘standard’ de Natal da geração de 80

Surgiu como single em 1984, o ano em que os Wham! se transformaram num fenómeno pop de dimensão global. De então para cá conheceu várias reedições e versões por nomes como, entre outros, os Arctic Mnkeys, Erlend Oye, The XX, Taylor Swift ou David Fonseca.

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Dos standards que há várias décadas ouvimos em sucessivas novas versões em vozes que vão de Frank Sinatra ou Elvis Presley aos Bright Eyes, a criações mais recentes como as que, a cada ano, Sufjan Stevens gosta de apresentar em EPs que cria expressamente para esta quadra, o universo das canções de Natal está longe de ser coisa esgotada no passado. E na verdade desde a viragem do século temos assistido até a inúmeras novas incursões por este universo sobretudo por bandas e artistas vindos de terrenos indie, recuperando um entusiasmo que esmorecera um pouco depois de finais dos anos 60. Foram, de facto, relativamente poucos os grandes êxitos de natal nascidos entre os anos 70 e 90, com canções como o hino pacifista de 1972 “Xappy Xmas (War Is Over) de John Lennon e Yoko Ono ou esforço coletivo “Do They Know It’s Christmas”, gravado originalmente pelo projeto Band Aid em 1984, a representar dois casos notáveis de grande sucesso.

Cabe porém aos Wham! a criação, nesse intervalo de tempo, do clássico de Natal cujo impacte mais se assemelha com a dimensão de um standard, tantas que são já as versões que dele foram criadas. Foi editado pela primeira vez em 1984. E dele quase todos conhecemos de cor a letra. E dele guardamos também a memória daquele teledisco que, facilmente, dominaria uma lista de candidatos ao quadro de Natal mais kitsch de sempre, no qual se recriava uma noite de consoada protagonizada pelos dois elementos do grupo, a as cantoras Pepsie & Shirlie (que os acompanhavam então como coristas) e Martin Kemp, dos Spandau Ballet, que pouco depois casaria com Shirley Holliman. Sim, falamos de “Last Christmas”... E esta é uma história já com 32 anos de vida.

Conta-se que a ideia surgiu numa tarde de 1984 em que George Michael e Andrew Ridgley (os dois elementos dos Wham!) assistiam a um jogo de futebol na casa dos pais do vocalista. A ideia fê-los mergulhar imediatamente numa sessão de trabalho que entrou pela noite dentro, com George a definir logo ali as linhas centrais da composição. E o grupo, que nesse ano alcançara um patamar de sucesso global que se devia ao sucesso dos singles Wake Me Up Before You Go Go” e “Freedom” , do álbum Make It Big e ainda do single a solo de George Michael “Careless Whisper”, chegava à quadra natalícia com um novo single que só não chegou ao número um porque a canção da campanha do coletivo Band Aid destinada a lutar contra a fome em África, se instalou então de pedra e cal no topo da tabela de vendas de singles no Reino Unido.

Esse outro projeto, também com aroma de Natal, surgira do impacte causado por um documentário televisivo sobre a fome na Etiópia que levou Bob Geldof e Midge Ure (que então era vocalista dos Ultravox) a compor uma canção que, chamando a estúdio as colaborações de elementos dos Duran Duran, Bananarama, Style Council, U2, Spandau Ballet, Heaven 17 ou Culture Club, Sting, Paul Young ou David Bowie, além de George Michael, gerou o single que arrebatou as vendas do mercado de Natal desse ano. “Last Christmas”, lançado a 20 de dezembro, não ultrapassaria o número dois do top, somando contudo vendas que ultrapassaram logo nas primeiras semanas um milhão de unidades no Reino Unido, valores o que fazem deste o single que nunca chegou ao número um com vendas mais expressivas de sempre.

O impacte de “Last Christmas” foi tal que a canção regressaria no ano seguinte através de um novo lançamento em single feito então sob a designação Last Christmas ’85”. Haveria ainda novas edições em 1988 e 89, às quais se juntaram mais tarde quatro outras nos anos 90 e três já depois da viragem do milénio. É um lote de edições que, por si só, faz deste o mais popular “clássico” de Natal posterior aos standards mais canónicos da quadra.

As reedições e o regular regresso de “Last Christmas” às programações das estações de rádio na quadra natalícia foi, ano a ano, confirmando esse estatuto de standard que o tema foi criando. E não foi preciso esperar muito tempo para que começassem a surgir versões, muitas delas vindas até de territórios bem distante do mainstream no qual lembramos a obra dos Wham!. Nomes como, por exemplo, Erlend Oye (dos Kings Of Convenience), All About Eve, Arctic Monkeys, Little Boots, Future Islands, Olly Murs, Taylor Swift, os Manic Street Preachers, The XX, Ariana Grande, David Fonseca, Kim Wilde, Travis, Carly Rae Jepsen ou Camille já deram novas vidas a “Last Chrismas”. E 2016, sem exceção, tratará de nos fazer ouvi-la de novo.

Boas festas!

  • Três discos para recordar o melhor de 2016

    Opinião

    A sublime carta de despedida de David Bowie, o álbum talhado a dor que Nick Cave apresentou depois da perda de um filho e o disco de estreia da portuguesa Joana Barra Vaz são momentos a reter na história deste ano

  • Guerra de números nos mercados da música

    Opinião

    Para quem distribui, os valores pagos são sinal de crescimento. Para quem edita, ficam aquém do que seria justo. Mesmo com o mercado de streaming a aumentar e as contas da indústria da música a recuperar, o panorama está longe de ser sereno

  • À espera de “Trainspotting”...

    Opinião

    O filme que marcou uma geração vai ter uma continuação vinte anos depois... Chega em 2017, com os mesmos atores, o mesmo realizador... Como aperitivo servem-se, para já, memórias do filme original, na forma de uma edição em vinil cor de laranja de uma banda sonora que fez história em 1996