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Disco da cidade, disco do campo

No final do ano, um mini-top de melhores discos de 2016, entre o bulício da cidade e a calmaria aparente do campo

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

A menos de duas semanas do final do ano, sucedem-se, “lá fora” e “cá dentro” (se é que, num mundo governado pela internet, estas categorias ainda fazem sentido), as listas de melhores do ano. Na próxima quarta-feira, a BLITZ nº 127 chega às bancas com os topes que resultam da votação da nossa equipa – redação & colaboradores – nos discos que mais acariciaram os seus ouvidos e/ou inquietaram os seus corações nos últimos 12 meses. A valer continua ainda, também, a votação dos leitores dos seus favoritos – e os primeiros resultados deixam antever um top não demasiado longínquo do da redação, mas com saudáveis e já habituais idiossincrasias; afinal, já há dez anos que andamos nisto juntos.

Nos meus phones, toca neste momento um dos discos que mais me surpreenderam, neste ano de 2016 que, dado o eclipse de demasiadas estrelas, tendemos a considerar ter sido negro. Barbara Barbara, we face a shining future, o atlético regresso dos veteraníssimos Underworld, é um elegante caldeirão de eletrónica para todos os gostos. Li algures que o rótulo de “techno pastoral” lhe assentaria bem, e de facto nem um tema tocado por Karl Hyde à guitarra acústica – “Santiago Cuatro”, gravado à primeira num quarto de hotel na capital chilena – falta a este mosaico de observações velozes, fugazes, insistentes. Numa entrevista feita às primeiras horas de uma manhã chuvosa, o inglês contou-nos que escreve as suas letras – aquelas palavras que chovem sobre a música num stream of consciousness com o seu quê de Mark E. Smith – inspirado por frases que escuta no café, nos transportes, nas ruas. Barbara Barbara… é um disco contemporâneo, realista, viciante nos seus económicos sete temas. E transporta, com subtileza, uma mensagem importante. Afinal, “we face a shining future” foi o que o pai de Rick Smith, a outra metade da banda, disse à mulher antes de falecer – prova de que, mesmo nos mais retintos dos tempos, é possível partilhar um pouco de luz.

Da cidade dos Underworld, salto para “o campo” de William Tyler. Sobre o miúdo de Nashville, que Kurt Wagner, dos Lambchop (entrevistado da próxima BLITZ) começou por acolher na sua banda, já falei bastas vezes por aqui. Mas, meses depois de ser lançado, o seu Modern Country continua a deliciar-me com pormenores, inflexões e delicadezas de uma riqueza que justifica a insistência – e me levou a colocá-lo no primeiro lugar do meu top pessoal.

Curiosa é a forma como, sem palavras (no caso de Mr. Tyler) ou com mensagens tão breves (“don’t let it drag you down, keep away from the dark side” é o mantra fortune cookie de “Motorhome”, dos Underworld), estes álbuns tenham dominado o meu ano.

Não que a palavra tenha ficado, naturalmente, esquecida: entre almoços, jantares e lanches de Natal, passei o fim de semana a embrulhar prendas ao som das canções de Nua, o segundo disco de Gisela João. E basta ouvir a forma como incendeia as palavras de David Mourão-Ferreira (“Labirinto ou Não Foi Nada”) ou como, gaiata, põe a sorrir o “Senhor Extraterrestre” (escrita por Carlos Paião para Amália) para perceber que está aqui uma voz sem tempo, para ficar. Boas festas!