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Os melhores do meu ano

A BLITZ já começou a revelar a sua lista, que terá ecos na edição que está aí quase a rebentar. Rui Miguel Abreu levanta o véu sobre as suas escolhas pessoais

O meu top 5 internacional tem discos que foram assinados por um tipo supostamente louco, por outro que também não se deu ao trabalho de mandar imprimir umas cópias do seu álbum, por um que partiu inesperadamente para Marte, por outro que faz música sobre cortar os pulsos e por uma senhora que bem podia ser presidente da América em vez do primeiro da lista...

Quatro dos nomes nesta lista são afro-americanos e o que não era – tinha, aliás, os olhos claros; um de cada cor, verdade, mas claros, ainda assim – há muito que tinha declarado a sua paixão pela música negra (e casou, aliás, com uma musa negra).

Depois temos a lista nacional: tal como no caso internacional também elaborei uma lista com 15 entradas, mas no top 5 abrigam-se obras de um compositor e arranjador tão cheio de música dentro que este ano lançou dois álbuns no mesmo dia, de um secreto talento do Porto que emigrou, regressou e fez um extraordinário disco sobre a experiência, de um par de amigos das duas margens de Lisboa que não são Kafka mas também têm um Processo, de um fenómeno que se ergueu das ruas através da internet (viva o wi-fi) e de um tipo que acha que carga de ombro não é falta, sobretudo se for dada com jeitinho.

Mais variedade aqui: jazz psicadélico iluminado pelo sol e apaixonado pelo espaço, rap de todas as cores e feitios, canções de corpo inteiro, electrificadas da forma correcta e cheias de palavras das que se colam à memória. E tudo discos de gente que, felizmente, continua a habitar esta dimensão. Haja saúde.

Quando eu era miúdo contava-se uma piada parva (continua a ser parva...) que dizia algo sobre o sexo ser bom duas vezes – quando se faz e quando se fala sobre o que se fez (algo assim, que não tenho grande jeito para anedotas). A piada dos balanços do ano vai mais ou menos no mesmo sentido: foi bom estes discos terem-se atravessado no meu caminho e volta a ser bom poder falar sobre eles, revisitá-los, dar-lhes o espaço que eles merecem e que também sabem exigir.

É curioso pensar que três destes discos não existem nas estantes cá de casa (nem de qualquer outra casa) e que essa é uma tendência que deverá ser reforçada em 2017. Mas não é por existir apenas sob a forma de zeros e uns que navegam à velocidade da luz (se tiverem fibra óptica...) que a música importa menos. Continua a conquistar espaço nestas listas. Porque o que importa é o que os nossos ouvidos guardam, na verdade. Fosse tudo assim tão simples...

  • Incrível Primavera

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    A Primavera é a estação favorita de Rui Miguel Abreu: a natureza volta a acordar, o sol afasta o frio e o mundo enche-se de música

  • Obrigado, Sharon Jones

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    A história do primeiro concerto de Sharon Jones em Portugal contada por uma das pessoas que o organizaram, Rui Miguel Abreu, colaborador da BLITZ