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Joana Barra Vaz

Três discos para recordar o melhor de 2016

A sublime carta de despedida de David Bowie, o álbum talhado a dor que Nick Cave apresentou depois da perda de um filho e o disco de estreia da portuguesa Joana Barra Vaz são momentos a reter na história deste ano

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

É claro que não podemos reduzir um ano a uma mão-cheia de discos. Mas há que cumprir as tradições. E esta de fazer listas é das que mais gosto... Em vez do top 10, ou de relatórios mais extensos ainda de títulos encadeados, proponho três discos que nos ajudem a lembrar episódios marcantes da história que ficou gravada em 2016. Dois deles falam de morte, um apresentando inclusivamente todo um programa de despedida. O outro é um raio de luz que ilumina da melhor forma aquele gosto de ousadia experimentação que a música portuguesa já conheceu em discos da Banda do Casaco ou de José Afonso. E aqui teve um momento de saudável continuidade.

David Bowie - Blackstar

A 8 de janeiro deste ano recebemos uma carta de despedida sem imaginarmos que assim o era e que aquele que se preparava para nos dizer adeus era, afinal, o autor de todas aquelas canções e a voz que ali lhes dava vida em disco. Começámos na verdade a descobrir Blackstar (o correto seria escrever ★ ) ainda em finais de 2014 quando, como sinal de vida ativa num momento em que lançava uma antologia que cobria 50 anos de carreira, David Bowie se juntou à orquestra de Maria Schneider para gravar duas novas canções que desafiavam a lógica habitual de tempo da canção pop, procurando formas de diálogo entre a sua linguagem e ecos do jazz.

Esse universo não era novidade, note-se, na carreira de Bowie e basta regressarmos a momentos de Aladdin Sane, Black Tie White Noise ou Reality para notarmos a sua presença em discos anteriores. E o saxofone, que se afirmava aqui com maior protagonismo do que o habitual é, na verdade, o instrumento de raiz de David Bowie. De certa forma, o adeus fazia-se com um reencontro com o início de tudo, como quando se fecha um ciclo. O da sua vida, neste caso. Com apenas sete canções – entre as quais duas regravações consideravelmente diferentes de “Sue (or in a Season of Crime)” e “‘Tis a Pity She’s a Whore” – o disco revela uma pulsão experimental como Bowie levou já a vários momentos da sua obra mas que não se manifestara tão evidente nem mesmo em 1.Outside (de 1995). Só dois dias depois, com a notícia da sua morte, o negrume anunciado por esta estrela ganhou trágico sentido.

Nick Cave & The Bad Seeds - “Skeleton Tree”

Tal como no cântico de despedida que David Bowie, em Skeleton Tree encontramos um Nick Cave, mais pessoal, íntimo e dorido do que nunca, em oito canções que traduzem o processo através do qual tenta ultrapassar uma perda. A perda de um filho. Este é por isso um álbum profundamente habitado por fantasmas e pelo espaço vazio que o desaparecimento de Arthur deixou no pai. O tom elegíaco que “Jesus Alone” sugere logo na canção que faz a abertura do alinhamento mantém-se durante todo o disco. A voz revela-se num lugar de fronteiras difusas entre a fala e o canto, procurando os instrumentos nunca a incomodar, propondo cenografias que nascem de ambientes tecidos pelas teclas, cordas, uma guitarra discreta e uma percussão que sublinha pulsações mais do que estrutura rítmica convencional. Sem a violência de um soco no estômago, mas revelando-se afinal ainda mais doloroso e cortante, a música, entranha-se e, depois, corrói por dentro. O disco é por um lado o fruto mais recente de uma caminhada evolutiva que tem já bem longe as memórias dos Boys Next Door e de uns Birthday Party. E reflete acima de tudo o estado de entendimento maior entretanto conseguido entre Nick Cave e Warren Ellis, estando de resto mais próximo das experiências de música para cinema que ambos têm criado do que de muitos momentos na história dos álbuns de canções que fazem a obra anterior de Nick Cave.

Joana Barra Vaz - Mergulho em Loba

Chamei-lhe a melhor surpresa que a música portuguesa nos deu a escutar em 2016. E disse que Mergulho em Loba, um disco tão sedutor como intrigante, é daqueles raros álbuns que nos intrigam a um primeiro encontro e que, depois, devagarinho, aos poucos, se vai revelando, até que o mergulho se faça luz… O álbum recupera uma dimensão exploratória que, como em tempos havia nos discos da Banda do Casaco, reflete uma curiosidade sobre o juntar de ideias de origens diversas para observar os diálogos que dali possam depois nascer. Cruzam-se ali geografias, quere as dos mapas das culturas musicais, quer as das fontes sonoras. E assim, juntando vivências, memórias e referências que passam por livros (como os de Italo Calvino) ou por músicos admirados (como George Harrisson), mas também refletem uma presença de ecos africanos, ganha forma uma aventura que foi ganhando forma entre 2012 e 2015 e agora se materializou num álbum. Além das composições os arranjos transportam-nos para fora das fronteiras mais habituais dos géneros fazendo deste disco um caso que vive à margem, de certa maneira, das tendências e caminhos mais frequentemente levados a disco entre nós. Mas ao mesmo tempo traduz em si o estado de saudável agitação dos músicos em volta dos quais estas ideias foram surgindo. Grande estreia!

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